
Guilherme Rodrigues
Notas Báquicas: O melhor dos vinhos
Vinhos para a Páscoa: tradição, fé e boas harmonizações

Os feriados de Páscoa são o cenário perfeito para se inspirar em um bom vinho. Crédito: nutthasetharcher.
Nada mais inspirador para um bom vinho como os feriados de Páscoa.
Com eles termina a Quaresma, período dedicado ao jejum, à abstinência e ao recolhimento. O domingo de Páscoa celebra a vida, a ressurreição de Cristo. Curiosa coincidência com o calendário pagão: a época coincide com a chegada da primavera no hemisfério norte, onde se criou a liturgia. Ou seja, também sob o signo pagão, é o período do ressurgimento da vida, com o fim do inverno e o início da primavera.
Fiel ao espírito das celebrações, na Sexta-feira Santa vão à mesa os pescados, evitando-se carnes vermelhas – último suspiro da abstinência. Dentre todos, o fiel amigo, o bacalhau, tem lugar de honra no centro das atenções.
Com ele, os vinhos brancos mais encorpados são a pedida certa. Dentre os muitos, os Borgonhas (para mim, Meursault – e, se puder, premier cru – é o Nirvana), Chardonnays, Bairrada branco, alguns Douros especiais (como o Redoma e o Coche, da Niepoort), Bordeaux, desde que com boa dose de Sémillon no corte, Alvarinho, Godelho espanhol e mais o que o leitor aprecie ou se sinta tentado a servir à mesa.
Também, sem preconceitos, algum tinto menos pesado faz boa figura – entre eles, o Borgonha, um Pinot Noir de outras procedências ou tintos de outras castas e origens, de corpo médio, pouco marcados pela madeira ou sem passagem por ela.
As dicas para o bacalhau funcionam também com peixes, crustáceos e moluscos. Se pensar em paellas, então, melhor ainda.
O que virá no domingo de Páscoa, com a família reunida? Nada mais adequado, por todos os motivos, que o cordeiro, o anho pascal, símbolo da data – Agnus Dei. Com um belo pernil ou paleta ao forno ou nas brasas – ou outro corte preparado assim ou de outro modo –, é a hora dos grandes tintos, especialmente se estiverem maduros.
Agora é a vez de Bordeaux. Um grande Médoc, onde predomina a Cabernet Sauvignon, é talvez a melhor indicação. Se maduro, então, imbatível. Nem por isso outros grandes tintos deixam de se sair igualmente bem – por exemplo, os Graves, Pomerol e Saint-Émilion. Bons Rioja e Ribera del Duero também cumprem bem o papel. De Portugal, tintos do Douro, Dão, Bairrada e Alentejo fazem excelente escolta.
Ao final do repasto, para meditação e estímulo, sempre um Porto. Para fechar a refeição da Sexta-feira Santa – e em um patamar mais elevado –, grandes tawnies colheita ou 20 anos. Também tawny 10 anos, Porto reserva e mesmo os amigáveis rubies e tawnies.
No caso do almoço de Páscoa, após o cordeiro ou outra carne servida e o vinho tinto, para encerrar, novamente o Porto – agora em um estilo mais frutado, como LBV, reserva ou o supremo Vintage. Ou, como preferir o leitor, de outra forma: com Porto, termina-se sempre bem.
Além disso, os Portos acompanham muito bem chocolates, presença obrigatória após a passagem do coelhinho no domingo.
Ao leitor, desejo uma feliz Páscoa, celebrada com belos vinhos e muito amor.


