Dani Machado

Mesa Afora

O chef espanhol Rafa Zafra esteve em Montevidéu para dois jantares regados a caviar

20/03/2026 12:08
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Estive em Montevidéu para acompanhar dois jantares do chef espanhol Rafa Zafra, direto de Barcelona. A passagem do chef pela cidade também foi uma ótima oportunidade para conhecer melhor o Manzanar e o RiO Café, dois restaurantes que receberam essas experiências com segurança, identidade e boa execução.
Antes dos jantares especiais, consegui conhecer as duas casas em seu funcionamento normal, entendendo melhor o estilo de cada uma, o cardápio e a forma como trabalham. Depois, voltei para vê-las em outro contexto, diante de uma operação mais exigente, com menus fechados, ingredientes valiosos e a responsabilidade de receber um chef de projeção internacional.
O resultado foi muito bom nos dois casos.
O Manzanar tem uma proposta ampla. No menu aparecem grelhados na brasa, pizzas, crudos e também sushis. Em muitos lugares, isso poderia soar excessivo. Ali, não. Existe um fio condutor claro, que passa pelo produto e pela execução. Os pratos atravessam diferentes referências, mas mantêm coerência, e o restaurante funciona bem justamente por conseguir equilibrar esse repertório sem perder identidade.
O RiO Café segue por uma linha mais leve, com uma cozinha voltada ao compartilhamento, pratos de leitura mais direta e foco no frescor e no produto. É uma casa agradável, bem resolvida, com uma proposta que parece simples à primeira vista, mas que revela cuidado em cada detalhe.
Os dois fazem parte do mesmo grupo e têm à frente duas irmãs que cresceram neste ambiente gastronômico . O pai é um dos nomes por trás do Parador La Huella, em José Ignacio, um dos endereços mais conhecidos do Uruguai e que vale a visita. Você come praticamente com o pé na areia, em um lugar com ótima energia, cozinha fresca e serviço afinado. Essa bagagem aparece tanto na forma como as casas operam quanto na clareza de suas propostas.
Foi nesse contexto que aconteceram os jantares comandados por Rafa Zafra.
Direto de Barcelona, o chef levou a Montevidéu uma cozinha reconhecida pela valorização do produto, pela técnica e por sabores marcantes. No Manzanar, a leitura foi mais voltada à terra, em uma noite de pratos intensos, ingredientes nobres e uma certa generosidade, para ter uma ideia foram usados 12 kilos de caviar nos dois jantares, além de trufas vindas da Espanha e muito wagyu uruguaio.
A recepção começava com jamón de bellota sendo cortado na hora, empanada de wagyu e nigiri de atum bluefin. No jantar, a sequência seguiu com steak tartare de wagyu e o regional é impressionante, vegetais da estação em conserva feitos na casa e a lâmina de trufa à carbonara, referência ao período do chef no El Bulli. Também foi servido o sanduíche quente de steak tartare com caviar e foie.
Na sequência vieram as mollejas em três preparações, fritas, temperadas e glaceadas, além da massa finalizada com caviar. Como principal, chuleta maturada na brasa, acompanhada de alface grelhada e batatas fritas.
Dois dias depois, no RiO Café, o jantar seguiu outro caminho, totalmente voltado para o mar, em uma leitura mais fresca e delicada, muito alinhada à cozinha pela qual Rafa Zafra é especialmente reconhecido.
Na recepção, anchova com pão tomate, sushi de atum com caviar, salada de caranguejo com maionese de romesco e limão, tostada com caviar e sanduíche quente de salmão defumado com cream cheese e caviar. Na sequência, tartare de atum com gazpachuelo verde e camarão servido com maionese de limão e pincho moruno.
Como principal, merluza com molho beurre blanc e caviar, acompanhada de portobello confitado. Para finalizar, rabanada na brasa e sopa de romã com merengue enrolado.
O serviço foi preciso do começo ao fim, com pratos chegando no tempo certo e execução consistente. Mais do que receber dois jantares muito especiais, Manzanar e RiO Café mostraram personalidade própria e uma operação segura, daquelas que conseguem sustentar experiências desse porte sem perder naturalidade.
A passagem de Rafa Zafra por Montevidéu teve esse mérito: reunir um chef importante da gastronomia espanhola a duas casas que souberam recebê-lo à altura. Para quem gosta de viajar também pela comida, foi uma ótima oportunidade de olhar com mais atenção para uma cena que vem mostrando qualidade, E identidade.
Durante a viagem, também fiz um passeio na vinícola Bodega Deicas, uma das mais conhecidas do país. A visita inclui degustação dos vinhos e é uma experiência que vale a pena incluir no roteiro. A estrutura da vinícola é belíssima