Jacir Bergmann II

Jacir Bergmann II

Jacir Bergmann II é empresário e observador atento da gastronomia. Com vivência em cidades como Paris e Munique e uma trajetória marcada por viagens internacionais, construiu um amplo repertório de experiências. Na coluna “Explorador de Sabores”, compartilha reflexões e referências que transitam do trivial bem executado à alta gastronomia.

Explorador de Sabores

Na gastronomia, gosto não se impõe, se constrói

24/03/2026 18:01
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Um pastel de feira bem feito pode ser tão marcante quanto um restaurante estrelado. O que define a experiência é o repertório de quem prova. Crédito: Imagem gerada por IA (ChatGPT).

Escrever esta coluna é, para mim, uma honra e uma oportunidade de compartilhar uma trajetória de experiências gastronômicas construída ao longo de muitos anos. Não estou aqui para estabelecer padrões, criar modismos ou dizer o que é certo ou errado quando o assunto é gastronomia.
Gosto não se impõe. Não se decreta.
Gosto se forma. E, quando bem cuidado, se amplia.
Sou empresário. Morei fora do Brasil, viajei o mundo, sentei à mesa em lugares muito diferentes entre si. Estudei gastronomia por interesse verdadeiro, por curiosidade, por prazer intelectual e sensorial. Ao longo do tempo, percebi que existe uma palavra que sustenta tudo isso: referência.
Referência não é luxo. Não é ostentação. Não é coleção de restaurantes caros.
Referência é repertório. É comparação. É memória construída ao longo do tempo.
Ela nos permite entender por que algo é bom e não apenas afirmar que é. Ela dá base à preferência e consistência à opinião. Não se trata de escolher entre o simples e o sofisticado. Trata-se de compreender os dois.
Um pastel de feira, bem feito, massa correta, recheio equilibrado, fritura precisa, pode ser tão marcante quanto um jantar em um restaurante reconhecido pelo Guia Michelin.
São experiências distintas. Linguagens diferentes. Ambas legítimas. Ambas valiosas.
O ponto não está em gostar de um ou de outro. O ponto está na base da opinião.
Opinião todo mundo tem e deve ter. Mas quando ela nasce da vivência, da curiosidade e da disposição para experimentar e comparar, ela deixa de ser impulso e passa a ser construção.
Preferência é pessoal. Critério é desenvolvido. E desenvolver critério exige abertura. Exige sair da zona de conforto. Exige experimentar o novo sem abandonar o que já se conhece.
Neste espaço que estreio agora, vou falar das minhas preferências, não como verdades absolutas, mas como resultado de uma trajetória. Vou falar do prato trivial bem executado, do restaurante regional honesto, da cozinha autoral, da alta gastronomia e também daquilo que, muitas vezes, é superestimado.
Sem imposição. Sem arrogância. Sem espetáculo. Apenas observação, experiência e referência.
Se isso gerar concordância, ótimo. Se gerar discordância, melhor ainda.
Porque gastronomia boa não é a que silencia a mesa. É a que provoca conversa. E é essa conversa que começamos aqui.