
André Bezerra
A Xepa
O brunch...

Crédito: los_angela.
Recentemente, estive num brunch. Cheguei logo no início, até um pouco adiantado para o horário marcado, 11h. Eu queria registrar os movimentos finais dos preparos dentro da cozinha. O “ballet” das cozinheiras que parecem coreografar entre panelas, insumos, forno e fogão. A iluminação cênica naquele espaço é a luz natural que irrompe pelas janelas. A casa, toda cercada por horta, um pequeno pomar e os jardins, estava pronta. Costela de Adão e incontáveis arranjos feitos com outros verdes decoravam as mesas. Havia livros por toda parte: nas estantes, sobre os balcões, mesas de centro, entre os guardanapos de pano, os copos e as taças. Naturalmente, me distraí lendo trechos de poemas manuscritos sobre folhas de papel kraft e sobre páginas de cadernos emolduradas como quadros. A poesia, ali, é tratada com a mesma reverência que as pessoas nos retratos de família. Na verdade, nada é aleatório, exceto pela presença física da natureza, a sensação etérea de Deus e a vizinhança de muro com a igreja na esquina da Vicente com a Desembargador, num dos extremos do centro de Curitiba.
O acesso à casa é feito através do portão e por um corredor de paralelepípedos que desemboca no jardim frontal e na varanda. Ali é servido um “shot” de boas vindas. Comecei molhando o paladar com um preparo de laranja, limão, especiarias e cúrcuma da horta. O domingo caía como um elixir enquanto corpo, mente e espírito começaram a dar sinais de que entravam numa conexão indissolúvel com a natureza em volta e com a atmosfera dos últimos suspiros do verão. O outono batia à porta e, com ele, as temperaturas mais amenas, as folhas sobre o chão, as sensações introspectivas, os dias mais curtos e aquela luz oblíqua, típica da meia estação.
Dentro da casa, a playlist chamou minha atenção. Gosto da música ambiente, mas são as mesas montadas com o brunch e os pequenos detalhes que me detêm. O chapéu Panamá pendurado de encontro à parede. Sei que ele nem sempre “dormiu” ali. Ao contrário, já percorreu uma parte do mundo. Frequentou restaurantes, teatros, livrarias e salas de espetáculos. Esteve presente em rodadas onde houveram tomadas de decisões importantes, participou de almoços de família e de amigos, assim como foi companheiro nos momentos de ócio ao sabor de bom conhaque com tragos de charutos, leitura e reflexão. Já fez até o papel de um simples chapéu e protegeu o seu dono contra os raios ultravioletas do sol, abrigou os cabelos brancos da brisa fresca do outono, abraçou ideias e resoluções.
Detive-me, também, diante das diversas expressões artísticas. Almofadas com forros de elefantes bordados, enfeites de Budhas esculpidos e pássaros entalhados. Em um canto, bancos feitos de tronco de árvore. Sob uma das mesas-buffet, a banqueta em forma de tatu. Uma criança montou sobre ela como se montasse um cavalo. Não sabia que era um tatu e nem que eles cavam e constróem suas moradas sob a terra. Para a menina, poderia ser um pônei de brinquedo, um cachorro de faz-de-conta, um cavalinho de carrossel. Mas ela arregalou os olhos quando falei dos hábitos do tatu. Fitou-me com interesse genuíno enquanto cavalgava o bicho e dava colheradas no pote com pudim de lichia e creme de manga.
Ainda diante da grande mesa-buffet, alcancei pedaços de pães e broas. Fiquei intrigado com as geleias. De figo, de laranja, de pêssego, de melancia. Admiro a capacidade de um cozinheiro que sabe controlar o dulçor de geleias e sobremesas. Uma das principais virtudes nesta alquimia chamada culinária é o talento para equilibrar o açúcar nas receitas doces. Ao lado das geleias, o pesto bem fresco, de um verde profundo, como na bandeira do Brasil, levou rúcula, manjericão e castanha do Pará. Ao lado do pesto, um creme de abacate com queijo feta e sementes de abóbora. Referência francesa que frequenta as mesas de brunch, o Croque Monsieur foi servido numa travessa de louça branca, todo cortado em cubos, como se fosse um empadão. Uma adolescente perguntou o que seria aquela torta coberta de queijo e com um nome difícil de pronunciar. Me intrometi na conversa dela com a mãe e respondi que a receita tem origem francesa, que é muito popular por lá e que é tipo um bauru muito melhorado. A mãe parecia ser quase tão jovem quanto a filha, usava um vestido florido com pedraria aplicada e sorriu para mim, dizendo para a menina: “Ah, então você vai gostar”. A garota também sorriu, mostrando o aparelho nos dentes. Apanhou dois cubos do bauru prêt-a-porter, colocou no prato e se afastou, caminhando em direção ao jardim bem brasileiro que envolve a casa.
Depois de provar os pães, as geleias, a quiche de alho poró, o bolinho de arroz com geleia de pimenta, pastelzinho de rabada e o Croque Monsieur, fui até a mesa de pratos quentes: uma panela com legumes cozidos, multicoloridos; uma travessa com feijão branco, cogumelos e creme de queijo gruyère; arroz vegetariano e o Arroz Thai, rico, todo coberto por camarões graúdos, marinados no curry verde e, depois, grelhados. Contidos nas receitas estão as experiências da chef pela Tailândia, o curso na Blue Elephant e as tantas viagens para a Bahia. Ninguém nunca me disse, mas enxergo uma convergência velada nas receitas. Elas transitam entre a culinária tailandesa e os pratos da terra do Nosso Senhor do Bonfim. A chef consegue reunir cores intensas, aromas envolventes e uma picardia epidérmica, meio maliciosa, que alguém menos atento resumiria, displicentemente, à picancia pura e simples. Eu vou além. Nos meus devaneios, imagino que tem algo de maquiavélico naquele toque divino, alguma premeditação, um acaso intencional.
Diante da mesa de sobremesas, encontrei a Dona Rosarita. A Casa foi batizada em homenagem ao nome dela e, aos poucos, vou entendendo por que. Mergulhando na rotina do estabelecimento, como um tatu cavoucando a terra, comecei a me familiarizar com as relações. A chef, tenho chegado à conclusão, traz o talento de alquimista da cozinha no DNA. A Dona Rosarita é mãe dela, além de uma grande cozinheira. Fiquei observando - à distância - enquanto ela avaliava a apresentação da Torta do General. A atenção daquela senhora com a disposição da mesa, o espaçamento entre as travessas, o volume de cada uma, a sutil equação das alturas, as cerâmicas mais baixas, os cristais mais altos, suas posições em relação à luz do sol que entrava perpendicular, as sombras, os espaços vazios que pediam preenchimento ou, simplesmente, um detalhe que os valorizasse. Nada passou despercebido ao olhar experiente da Dona Rosarita. O doce de abóbora tinha uma cor de bronzeado bonito, de um bronze meio avermelhado e meio cor de mel. O bolo de capim limão levou uma cobertura que fazia ele parecer uma nuvem branca, sozinha no céu, daquelas que dizem “que alguém foi embora e que não demora até o pranto rolar”. Partido, enxerguei a cor do capim-limão no pão de ló. O arroz doce com limão kaffir ganhou, das mãos da Dona Rosarita, duas folhas bem verdinhas de kaffir na decoração. Este toque conferiu mais vida ao que já era vibrante mesmo na sua apresentação imaculada, quase sacra, como um véu.
Não por acaso, mas como uma travessura de estilo, reservo o início desta crônica para o final.
Foi uma salada que me aproximou da chef Claudia. Uma genial reunião de folhas, ervas frescas, especiarias e camarões. Desde então, gosto de abrir as refeições com as saladas dela. Não foi diferente no brunch e a minha manhã ganhou ares de Édem no momento que provei a Salada Picante de Manga Verde como “desjejum”. Fui atingido como um alvo fixo que está prevenido sobre o disparo, mas que, mesmo assim, sente o golpe. Enquanto eu sorvia, a chef, atarantada com tantos outros afazeres, me alcançou, olhou para o meu arranjo e perguntou se eu tinha polvilhado o pó picante de arroz de jasmim tostado. Atordoado, eu tinha esquecido e ela foi apanhar outro prato, desta vez com o pó.
Foi uma salada que me aproximou da chef Claudia. Uma genial reunião de folhas, ervas frescas, especiarias e camarões. Desde então, gosto de abrir as refeições com as saladas dela. Não foi diferente no brunch e a minha manhã ganhou ares de Édem no momento que provei a Salada Picante de Manga Verde como “desjejum”. Fui atingido como um alvo fixo que está prevenido sobre o disparo, mas que, mesmo assim, sente o golpe. Enquanto eu sorvia, a chef, atarantada com tantos outros afazeres, me alcançou, olhou para o meu arranjo e perguntou se eu tinha polvilhado o pó picante de arroz de jasmim tostado. Atordoado, eu tinha esquecido e ela foi apanhar outro prato, desta vez com o pó.
Pensei na essência da alquimia, que é transformar metais comuns em ouro. Folhas e especiarias que se transformam em saladas sublimes pelas mãos de certas cozinheiras-bruxas. A alquimia que uniu a ciência, a filosofia e a magia pautou o brunch daquele domingo, como permeia os jantares neste endereço quase secreto. Dias transcorridos e eu seguia sob o efeito da magia. Isso me intriga para além da minha lógica, quase tudo nesta culinária é assombro, maravilha ou mistério. Se é mágica ou feitiçaria, a resposta deve estar contida em algum caderno guardado, sob rígido amparo e em meio aos poderes místicos de magos, curandeiras, feiticeiros e bruxas.
