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Gastronomia perde chef e professor Vavo Krieck
A gastronomia de Curitiba perdeu neste sábado (11) uma de suas figuras mais humanas, carismáticas e inspiradoras. Morreu, vítima de um mal súbito, o chef e professor Vavo Krieck, aos 51 anos. Ele deixa dois filhos e o legado na formação de diversos profissionais da gastronomia da capital paranaense que passaram por ele durante a formação.
Para quem conviveu com Vavo - em sala de aula, nos bastidores de eventos ou diante das câmeras - a notícia chegou com incredulidade. Afinal, havia nele uma energia intensa, curiosa, inquieta. O chef e professor era o tipo de pessoa que parecia sempre no meio de uma história, de uma ideia ou de uma gargalhada.
Dois anos atrás, ao ser perfilado no Bom Gourmet, Vavo se revelou muito além do chef que o público via. Nascido Álvaro César, em Rio do Sul (SC), ele quase seguiu a arquitetura, implantou escola de idiomas e trabalhou com audiovisual. Todos caminhos que, à primeira vista, pouco dialogam com a cozinha, mas que ajudaram a formar o professor e comunicador que viria a ser.
O cozinhar sempre esteve presente na vida do chef - professor. Nas memórias de infância, era o pai, representante comercial da indústria alimentícia, quem comandava o fogão, preparando pratos simples que moldaram seu paladar e sua relação afetiva com a comida. Também foi esse pai quem lhe apresentou o extraordinário: de escargots em lata a foie gras, experiências que despertaram sua curiosidade e seu respeito pela diversidade gastronômica.
Em sala de aula, o professor defendia a escuta, o teste, o erro. “Vamos entender juntos que outros caminhos existem”, dizia, acolhendo desde receitas com margarina até técnicas mais refinadas. Para ele, cozinhar era antes de tudo um processo de descoberta.
Professor por mais de duas décadas - sendo os últimos anos dedicados à gastronomia -, ele marcou gerações de alunos em instituições como a Universidade Positivo (atual Cruzeiro do Sul), PUCPR e Centro Europeu. Em 2024, fez parte do grupo de mentores da primeira edição do The Next Chef. Na ocasião, mentorou o candidato Thiago Matos, que serviu o menu para avaliação do público no segundo jantar da temporada.
"Malvavo" tornava os invisíveis visíveis
Seu jeito irreverente lhe rendeu o apelido de “Malvavo”, que ele repetia entre risos. Em aula, devolvia perguntas, arrancava risadas, criava desconfortos produtivos. Era, ao mesmo tempo, rigoroso e generoso. Fora da sala, era igualmente intenso. Criador de conteúdo, apresentador natural, chef de eventos, pesquisador. Em seu mestrado, investigou os microrganismos de um levain feito por ele mesmo, um símbolo perfeito de sua personalidade: técnica e sensibilidade caminhando juntas.
Mas talvez seu traço mais marcante fosse o olhar para as pessoas. Vavo dizia gostar de “tornar os invisíveis visíveis”. Em cozinhas e eventos, fazia questão de saber se todos haviam comido, se estavam bem. Tratava alunos, colegas, auxiliares e garçons com a mesma atenção.
Pai de gêmeos, falava dos filhos com orgulho e ternura. Reproduzia com eles a mesma abertura que recebeu na infância: liberdade para experimentar, escolher, descobrir. Entre sushi e junk food, entre pizza e massas simples, construía memórias.
Passar pela “experiência Vavo”, como diziam seus alunos, era algo impossível de esquecer.
Agora, sua ausência também será.

