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Eventos Bom Gourmet

Em defesa da flora e da fauna nativas

Flávia Schiochet
04/11/2014 19:25
Chef Joan Roca, do espanhol El Celler de Can Roca, teve uma das palestras mais disputadas no evento
Chef Joan Roca, do espanhol El Celler de Can Roca, teve uma das palestras mais disputadas no evento
Mesmo que o tema da 11.ª edição do congresso Semana Mesa São Paulo seja a conexão entre o chef e o pequeno produtor, ainda permeia o debate o assunto do ano anterior: as raízes. Elas estiveram nas falas de boa parte dos chefs que se apresentaram no ciclo de palestras. Um deles foi o chef espanhol Joan Roca, que mostrou no segundo dia de evento que a alta cozinha conceitual do El Celler de Can Roca, considerado pela revista britânica Restaurant o segundo melhor do mundo, tem os dois pés fincados em Girona, sua cidade natal e também onde fica seu restaurante. Vem da tradição de pastorear ovelhas a inspiração para uma sobremesa criada pelo seu irmão Jordi. O padrão desenhado na pele de um peixe inspirou a apresentação de um prato preparado com sua carne. Uma folha de figueira liquefeita virou o coalho de um queijo de ovelhas feito com o leite da região. O público saiu do auditório aos suspiros.
Ao final da palestra, Roca desceu do palco e atendeu aos pedidos de fotografias de fãs fervorosos. Nos corredores, o público se derretia com frases do tipo “é de se apaixonar, não é?” ou “que poeta!”. No rosto do chef, a mesma expressão tranquila com que apresentou sua defesa ao uso das plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e contra o uso da “tecnologia pela tecnologia”. “Para um cozinheiro, tão importante quanto cozinhar deve ser saber o que cozinhar. Usar técnicas só quando é extremamente necessário para preparar de forma mais eficaz e não porque está na moda liofilizar ou destilar”, aconselhou. Na sua equipe, Roca tem um botânico que o acompanha nas saídas a campo para identificar pequenas plantas e ervas que podem ser usadas na cozinha. “Conhecer seu entorno nos faz cuidar mais, e a cozinha pode ser uma ferramenta para mudar nosso entorno”, definiu Joan.
Ao apontar os caminhos para recuperar tradição popular e cultura e para o futuro da gastronomia, todos os chefs se voltam para a mesma direção: o uso de plantas, moluscos, algas e outros produtos da natureza diferentes dos tradicionais. Para Alex Atala, chef do restaurante D.O.M. e Dalva e Ditto, o Brasil é um país com biodiversidade impressionante e que “poucos países tem uma mão de obra tão servil e simpática quanto nós. Não é bacana ver um baiano ou cearense trabalhando como sushiman?”. Ele subiu ao palco com seu fornecedor de algas e moluscos, Ivan Taffarel, de Santa Catarina, e mostrou três preparos usando os itens.
Atala prende a plateia com a mesma facilidade com que segura um zest de limão cravo: descontraidamente entre o polegar e o indicador. Foi ele quem terminou de derreter a plateia sensibilizada por Roca.
Atala terminou de sensibilizar a plateia após a palestra de Roca. Foto: Adriano Bellagente/Divulgação
Atala terminou de sensibilizar a plateia após a palestra de Roca. Foto: Adriano Bellagente/Divulgação
Alex passou as algas codium e salicórnia para o público experimentar e a cada frase categórica proferida, era interrompido por uma salva de palmas e assovios. Uma delas foi ao lembrar de uma vez em que preparou escargot na Itália: “Abri as duas caixas de caramujos e eles começaram a fugir. São mais rápidos que eu! Joguei na panela com a caixa e tudo. Dá dó matar caramujo assim?” A plateia fez silêncio, mas sinalizou com a cabeça que não. “E dó de matar galinha?” O público riu ao lembrar a polêmica que o chef causou ao matar uma galinha ao vivo no simpósio MAD, na Dinamarca, em 2013. “Fui linchado. Eu tenho orgulho de matar galinha!”, falou bem-humorado, ao que o público foi à loucura em gritos, palmas e assovios.
Nova geração em consonância
Também no ciclo de palestras, Thiago Castanho, chef do Remanso do Bosque, em Belém do Pará, mostrou seu trabalho com um produto típico de sua região e ainda sem legislação: o mel de uruçu-cinzenta, uma abelha nativa da Amazônia, chamado pelo chef de iramel. “Chamamos assim para lutar por uma legislação própria para o iramel, que é diferente do mel produzido pela Apis melifera”, justificou. A Apis melifera é uma espécie híbrida que não é nativa do Brasil, e seu mel, facilmente encontrado nos mercados, tem teor de umidade de 20%, diferente do mel das abelhas brasileiras que não têm ferrão, que é de aproximadamente 35%. Pela legislação atual, só pode ser chamado de mel o produto das abelhas com até 20% de umidade, porque é um produto estável, que não terá contaminação de micro-organismos.
Mas é justamente a fermentação que interessa ao chef: Thiago destacou a riqueza de sabores e as propriedades que o mel de uruçu fermentado tem e espera que o trabalho dos cozinheiros repercuta na sociedade a favor dos pequenos produtores. “De nada adianta só nós usarmos esses produtos no restaurante. Este mel está no nosso menu degustação, é um volume muito pequeno. Faço a ponte entre o produtor e o público, mas também com nutricionistas, outros chefs, outros produtores de alimentos, como os cervejeiros. Assim vamos criar volume para essas pessoas trabalharem e ganharem o mercado”, disse.
A chef Manu Buffara, de Curitiba, participou pela segunda vez do ciclo de palestras do Semana Mesa e neste ano levou consigo o “case” da Associação de Criadores de Abelhas Nativas (Acriapa), de Guaraqueçaba. “A Acriapa é a primeira associação de melipolinicultores do Brasil a conseguir o SIF e é um modelo de sucesso para os outros criadores, tem gente que vai lá conhecer para aplicar em outras regiões”, contou. Por estarem em área de preservação ambiental, a flora nativa ajuda os enxames e é responsável por cerca de 70% da polinização das plantas. Entre elas, PANCs. A chef mostrou ao público dois preparos: um peixe marinado em mel de mandaçaia e uma sobremesa que mistura os méis de uruçu e tubuna. Para a oferta crescer, no entanto, não é algo instantâneo. “Para criar novas colmeias dessas abelhas é muito mais delicado que da Apis melifera. Pode levar anos para colher um quilo de mel, mas tem valor agregado, um produto que é nosso”, defende Manu.
O uso de um mesmo produto brasileiro trazido por dois chefs tão distintos quanto Manu, que é do Sul, e por Castanho, nortista, mostra que a nova leva fala em uníssono. Atala elogia: “Se você olhar toda essa nova geração brasileira que está se apresentando aqui, você vê que cada um interpreta o Brasil à sua maneira, mas tudo isso é Brasil. Que outro país tem tanta riqueza para mostrar? Com todo o respeito, mas podemos ser muito mais do que o Peru”, cravou. “Falta incentivo e que o governo comece a tratar nossos chefs como diplomatas, representantes do nosso país lá fora”.
*A jornalista viajou a convite da organização do evento.