Anacreon de Téos

Panela do Anacreon

Tem boa comida italiana na Lapa. Com um jeito tropeiro, é claro

03/01/2026 17:11
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Quirera ítalo-tropeira, o feliz resultado da fusão da comida italiana com as raízes tropeira da Lapa. | Foto: Anacreon de Téos

O que acontece quando um cozinheiro de linha italiana chega numa cidade histórica, que marca por seus costumes e por sua comida tropeira? A resposta é o que está vivendo a cidade da Lapa (60 km de Curitiba), onde o chef Ary Fernando aplica todo seu conhecimento nos fundamentos vindos dos sabores da Itália para valorizar a linha mais direta da herança que os tropeiros deixaram nos pratos servidos por lá.
Sim, o Bravíssimo marca pelo que se construiu como gastronomia “ítalo-tropeira” e os resultados são muito interessantes em todas as propostas do cardápio.
Como todo profissional de cozinha, Ary Fernando começou a se interessar por panelas e fogões ainda jovem, inventando algumas “misturas” para parentes e pessoas próximas. Amigo de infância do chef André Pionteke, foi convidado a fazer algumas taxas (que é quando a contratação é por um evento ou algo assim) e começou a pegar gosto pela coisa. A ponto de decidir largar a TI, área onde atuava, para fazer curso de gastronomia.
Chef Ary Fernando à frente de seu restaurante Bravíssimo, na Lapa. ! Foto: Anacreon de Téos
Chef Ary Fernando à frente de seu restaurante Bravíssimo, na Lapa. ! Foto: Anacreon de Téos
As portas começaram a se abrir e ele passou por Banoffi, La Linda, Forneria Copacabana, Bobardí, Thai, Alessandro & Frederico e Tuna. Até ganhar a oportunidade de expor e servir algumas de suas próprias criações, no Clericot, onde assumiu o comando da cozinha. Era um espaço pequeno, na esquina da Carlos de Carvalho com a Praça da Espanha, com bons petiscos, comida atraente e drinques interessantes. Clericot também, claro.
Até que um dia surgiu a Lapa em sua vida. Convidado para, num fim de semana, ir para auxiliar uma amiga no seu bar, o Barbarão, foi ficando, ficando e ficou. Afinal de contas, conheceu Bruna, que viria a ser sua esposa e parceira dali em diante.  Começou a conquistar a cidade. Primeiro, abrindo o Bravo Mex, que misturava a cozinha mexicana com a lapiana. Até que, em pleno período de pandemia, apresentou o Bravíssimo, restaurante voltado para refeições do dia a dia e algumas opções mais elaboradas.
A ideia, já pelo nome escolhido, era investir na linha da comida italiana. Mas, um dia – numa das preliminares do The Next Chef, aqui do Bom Gourmet -, apresentou alguns de seus pratos ao chef Guilherme Guzella, uma bela de uma “cotoletta” clássica e, de pronto, já recebeu um alerta: “você está numa cidade histórica, com comida tradicional e apreciada. Por que abrir mais um restaurante italiano? ”
Matriciana, da tradicional cozinha italiana, com o toque lapiano no bacon produzido ali. | Foto: Anacreon de Téos
Matriciana, da tradicional cozinha italiana, com o toque lapiano no bacon produzido ali. | Foto: Anacreon de Téos
Naquele momento surgia seu foco, a fusão das duas linhas; chegava o Bravíssimo Ítalo-Tropeiro, incluindo toda a cultura e a história dos italianos que aqui se encontraram com o gemellaggio, que é a exaltação, em italiano, do encontro de origem da Lapa com Istrana, cidade italiana irmã, do Veneto, mas também uma cidade tropeira.
E tudo deu muito certo. Do menu com essas fusões, o prato que mais representa esse espírito é justamente o Gemellaggio, uma bisteca de porco moura, massa fresca, feijões refritos, com molho de tomate assado, farofa de linguiça lapiana e salada ao molho ranch. Mas o cardápio é bem rico e outros dois pratos me impressionaram: dentre as massas, a Matriciana (bacon, parmesão e molho sugo) e, daqueles mais tropeiros, Quirera ítalo-tropeira (torresmo, ovo, couve crispy, costelinha defumada e salada). A quirerinha vai à panela com vinho branco, para abrir, daí é finalizada com manteiga (caprichada) e parmesão – daí vem o lado italiano. Na composição do prato, costelinha defumada, manjerona, ovo frito na banha de porco, torresmo e couve crispy. Tem como não gostar?
Tropeiro lapiano, um clássico da cidade com alguns toques pessoais no Bravíssimo. | Foto: Anacreon de Téos
Tropeiro lapiano, um clássico da cidade com alguns toques pessoais no Bravíssimo. | Foto: Anacreon de Téos
Ah, sim, tem também o tradicional Tropeiro lapiano (virado de feijão, arroz, torresmo, ovo frito na banha, couve crispy, prime rib suíno e salada) e, como não poderia deixar de ser, uma homenagem à cidade irmã, o Fettuccine Istrana, ao sugo ou na manteiga, que pode ser servido com frango, bife de coxão mole ou tilápia.
No menu Primes (com porções mais generosas), algumas carnes, como Filé do Monge (salada, arroz, feijão, polenta, farofa e ovo) e o Assado de tira (salada, arroz, feijão, polenta e farofa).
Para petiscar, as famosas Coxinhas de farofa (marca da cidade), acompanhadas de geleia de abacaxi com pimenta.
Coxinha de farofa, símbolo da Lapa
Coxinha de farofa, prato que representa a Lapa e está caminhando para ter sua IG. | Foto: Anacreon de Téos
Coxinha de farofa, prato que representa a Lapa e está caminhando para ter sua IG. | Foto: Anacreon de Téos
A Coxinha de farofa nasceu por acaso. Foi numa festa de igreja, lá pela década de 40, em homenagem a São Benedito. Deu mais gente do que se imaginava e acabaram os petiscos preparados com antecedência.
Havia sobrado apenas a farofa que recheava o frango e um pouco de massa de pastel. A solução encontrada foi enrolar a massa, rechear com a farofa e daí fritar. Ficou no formato de uma coxinha e foi o maior sucesso.
Dali em diante, em qualquer festa ou evento que aconteçam na Lapa, a Coxinha de farofa é presença obrigatória. E, é claro, também no cardápio do Bravíssimo, onde é a estrela principal entre os petiscos e porções (já está tramitando para o reconhecimento de IG, como símbolo da cidade).
Mas também é possível encontrar Torresmo da Nonna, Bolinho de feijoada, Frango crocante, Frango na chapa e Carne na chapa.
Entre os sanduíches, o Pão com bife (pão, 120g de bife, maionese da casa, vinagrete e queijo) é o mais famoso e mais elogiado.
Para fechar, quatro são as sobremesas: Banana brûllée, Cookie burg, Taça de Banoffi e Banana Bravíssimo (banana crocante, com ganache de doce de leite).
Banana Bravíssimo, com ganache de doce de leite. | Foto: Anacreon de Téos
Banana Bravíssimo, com ganache de doce de leite. | Foto: Anacreon de Téos
Os preços são bem em conta (mesmo) e os pratos muito bem servidos. Juntando isso ao talento do chef – que faz questão de ir às mesas comentar suas criações - e à simpatia do pessoal de salão, não tem como retornar sempre. E sempre querendo mais.
Ah, sim, ainda a tempo: o torresmo de lá é incrível, o melhor que comi nos últimos tempos. Macio, saboroso, sem qualquer dificuldade de mastigar (os dentes agradecem).
Além da lida diária no restaurante, Ary Fernando é sócio da FIC Brasile, a ponte oficial entre o Brasil e a Federazione Italiana Cuochi, é diretor de gastronomia do Comtur-Lapa e instrutor de gastronomia do Senac Paraná.
O restaurante está funcionando normalmente neste fim de semana de feriadão.
Bravíssimo – Restaurante Ítalo-Tropeiro
Rua Amintas de Barros, 29 – Lapa – PR
WhatsApp (41) 99804-1278