A Xepa, com André Bezerra e convidados

A Xepa, com André Bezerra e convidados

A Xepa

Sobre o Tempo, o Mar e o Pomar

08/01/2026 11:40
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Observá-la no pomar foi como olhar o próprio mar. Era 31 de dezembro de algum ano. Para a maioria das pessoas, ciclos se fechavam, como a dar lugar a outros. O significado e a importância de um novo ano têm essa vastidão e profundeza oceânicas nesta época. Eu li, uma vez, que o ponteiro do relógio retorna ao princípio a cada doze horas. As horas, porém, não voltam. Mesmo assim, diante do vai-vem da arrebentação, o tempo parece derreter. É diferente olhar o mar num dia de sol ou observá-lo sob a chuva. O primeiro é mais bonito. O segundo, mais poético. O mar de dia e o noturno. O primeiro, exuberante. O segundo, misterioso. Ambos são imponentes e líricos.
Ao mesmo tempo que deixava as reminiscências das últimas horas do ano invadirem os meus pensamentos, a verdade é que a visão da mulher colhendo as frutas e flores tinha um significado ainda maior. Aquele momento permaneceria na minha memória para sempre. O novo ciclo, para mim, começava naquele preciso instante. Por isso fiquei em silêncio enquanto ela parecia se camuflar entre os pés de maracujás. Em inglês, passion fruit, ou fruta da paixão. Havia uma lógica na forma como se movia entre as árvores. Ela aplicava método na maneira de escolher os frutos, no jeito de esticar os braços, pinçar os maracujás entre os dedos e girá-los antes de colhe-los do pé. Nas mãos dela, uma parte viraria suco. A outra, doce. As folhas dariam um chá com propriedades antioxidantes e efeito calmante. Também decorariam a mesa. Fruta e folhas comporiam arranjos belíssimos, aromáticos.
Ela, então, passou para os hibiscos. Coloridos como o vestido que usava. A visão, de onde eu estava, divina. Não era o vestido que tinha as cores das flores. Ao contrário, podia jurar que os hibiscos se tingiam de uma aquarela multicolor conforme ela passava com o vestido florido. Dançava ao som do vento, como se ele soprasse uma partitura de notas musicais. Os hibiscos também decorariam a mesa, também dariam chás. Suas propriedades diuréticas, antioxidantes e anti-inflamatórias fariam as pessoas reterem menos líquidos, viverem menos envelhecidas e mais delgadas. Colheu o suficiente para dois ou três maços e colocou na mesma cesta com os maracujás. Passion fruit.
Então, o capim-limão. Aquela era a erva dela. Benéfica na digestão, combate até a ansiedade. Os efeitos medicinais, porém, parecem encolher diante do uso culinário que a bailarina do pomar promove. Aromático, o capim-limão vai na salada dela. Entre camarões, curry verde e azeite de oliva de ótima cepa, é o capim-limão que surpreende o paladar, que faz a salada ganhar vida e protagonizar uma ceia de várias etapas.
Quando ela se curvou para cheirar a sálvia, pensei no peixe. Ele viria cozido, seu filé branco, alto e suculento sob o molho com o sabor explosivo das ervas. A picância da pimenta bem vermelha, fresca, cortada miúda na ponta da faca. A mesma pimenta que, inteira, surgiria amarrada aos guardanapos de pano na decoração da mesa. Não para espantar maus agouros - eles passavam longe daqueles jardins, hortas e do pomar dela - mas para atraírem sorte e falarem sobre receitas que vêm de países longínquos e culturas ancestrais.
Para a entrada, colheu tomates japoneses. Partidos ao meio, de comprido, levariam somente azeite e flor de sal. A natureza já se encarregara do resto e o trabalho daquela cozinheira era, simplesmente, finalizá-los e servi-los.
O coentro iria nos bolinhos de peixe. A pitaya, na sobremesa e, as laranjas, na calda do bolo e no licor. Em rodelas, ornariam o coquetel com espumante, água tônica e Aperol. Desidratadas, as rodelas de laranja comporiam outros chás e outros drinques.
De repente, uma chuva fina começou a cair sobre o quintal, regando o pomar. Desceu sobre os canteiros da horta, atravessou as copas das árvores frutíferas e tocou o solo. Fez subir um cheiro de relva, molhou os cabelos da mulher, a cesta e o vestido. Ela continuou ali, entre árvores frutíferas, mudas e touceiras. Justo ela, responsável pela última refeição daquele ano e pelos primeiros tragos do ano que começaria. A cozinheira que prepararia a ceia de Reveillon parecia, ao meu olhar, alheia ao tique-taque do relógio dos homens, à cronologia exata das horas mundanas. Aquela pessoa vivia no compasso da mãe natureza e trazia nela um significado mais importante do que a contagem regressiva de dali algumas horas. Ela era muito maior do que uma janela que se abre para o novo ano. Coreografava como uma bailarina principal no final do primeiro ato, atenta aos próprios movimentos, imperturbável diante da plateia. Falava a mesma língua e se movia no tempo dos poetas. Coloria os hibiscos e conferia aroma aos maracujás que recebiam a chuva de verão. Ela trazia o perfume da chuva.
Experimentei um sentimento etéreo de respeito, misturado a uma salinidade que se materializava envolvente no ar. Que grande paradoxo. A dedicação que ela devotaria à cozinha, aos pratos que prepararia. Tudo precedido pelos movimentos daquela coreografia no pomar. Movimentos quase sacros, mas um pouco profanos.
De onde eu estava, meus pensamentos se embolavam como se naufragassem entre ondas de ressaca e a retomada do fôlego nos pulmões, a vida voltando para dentro de mim. Observá-la à distância foi como olhar o próprio mar, atirar-me nele e, em meio a ondas gigantes de espanto e a sobressaltos, simplesmente deixar-me levar.