
André Bezerra
A Xepa
Parmegiana e o "Pão Delícia"

Parmegiana, pão delícia e lembranças de infância mostram como sabores e experiências moldam o paladar e a memória afetiva. Crédito: Imagem gerada por IA (ChatGPT).
O restaurante do Clube era quente, parecia um forno de pizza. As portas largas, escancaradas para o parque aquático e a piscina do trampolim, sugavam o ar quente que adentrava o recinto em grandes ondas de calor. Os ventiladores, barulhentos, não eram páreo para as temperaturas do verão londrinense.
Aos finais de semana, especialmente aos domingos, o restaurante ficava entupido de gente. Famílias inteiras se aglomeravam ao redor das mesas e o alarido só não vencia o calorão. Como o almoço costumava ser o intervalo entre o banho de sol da manhã e o banho de piscina da tarde, o código de vestimenta não poderia ser outro: Mulheres e homens adultos em saídas de banho e camisetas regatas, respectivamente. Dentre as crianças, meninas de maiô, no máximo uns shorts. Meninos de calção. Todos os pequenos ainda encharcados e com os cabelos escorridos, duros e cheirando a cloro, armavam uma cacofonia com as conversas dos adultos e os ruídos de pratos, talheres e travessas de inox que voavam sobre as cabeças das pessoas e pousavam sobre as mesas forradas por “toalhas” plásticas. Ainda lembro da sensação dos meus bracinhos de menino decalcando o plástico de suor.
Da cozinha, vinham o frango assado com farofa, a lasanha e o filé Parmegiana. Às vezes tinha supreme de frango, purê de batatas, filé de peito, creme de milho. Cerveja para os adultos, suco e refrigerante para as crianças. Antes, porém, a salada. Uma grande travessa chegava com alface, tomate, cebola, cenoura ralada, chuchu, palmito, ovo de codorna e picles de pepino. Eu só gostava do ovo de codorna e dos picles. Será que algum adulto reparava que havia um projeto de botequeiro, em calção de banho, suando à mesa?
Enfim, a sobremesa. Sagu de vinho, gelatina de framboesa, picolé de chocolate, de côco, limão, groselha ou um que não lembro o nome, justamente o meu favorito. Era tipo um sorvete napolitano, só que picolé em forma de foguete. A ponta levava uma cobertura de chocolate. E tinha sorvete de massa também, de morango ou de creme. Meu tio e meu pai, Alencar, faziam vaca preta para a criançada. Até hoje não posso ver uma bola de creme. Peço um copo alto, Coca Cola, uma colher de sobremesa e repito a vaca preta do Tio Bruno e do pai.
Lembro-me de ficar entretido com os garçons que empilhavam travessas e pratos sobre os braços e saíam equilibrando aquelas pilhas entre as pessoas e os colegas numa espécie de vaivém coreografado. Eu torcia para eles trombarem e derrubarem as bandejas, como n’Os Trapalhões, mas não acontecia. No máximo, ouvíamos um copo ou um prato se quebrando ao longe, somando ao imenso alarido. E quando acontecia na nossa mesa, ou ao lado, uma operação era armada imediatamente. Todas as mães seguravam seus filhos para que não pisássemos descalços no chão. Os homens ficavam em pé, rodeando os cacos e sinalizando aos garçons que chegavam em dois ou três, com vassouras, rodos, baldes e panos de chão. Eu gostava de ficar em pé sobre o banco e olhar o restaurante de cima, como se fosse gente grande. O mundo era diferente visto daquele ponto de vista. Os garçons sabiam os nomes de cada membro de cada família e me chamavam de Alencarzinho, pela semelhança com o meu pai.
O meu primo é o Bruninho. Ele detestava comer. Nisso éramos diferentes. Em comum, gostávamos de nadar e jogar tênis. Passávamos tardes inteiras jogando no saibro. Só parávamos para nadar e pra comer. Eu já era um bom garfo, mas havia algo terrível sobre almoçar. Depois que terminávamos, as nossas mães nos faziam descansar por pelo menos 40 minutos. Diziam que era “para fazer a digestão”. Seja como fosse, eu só sabia que, se entrasse na piscina em seguida da refeição, morreria imediatamente. E a piscina, de fato, ficava deserta na hora do almoço. Eu ficava olhando uma ou outra criança que pulavam na água. Esperava que eles morressem e os corpos deles boiassem. Como nunca aconteceu, minha mãe dizia que não tinham almoçado. Eu acreditava e ficava sentado ao lado do Bruninho. Ele simplesmente cruzava os braços, contrariado, enquanto eu tomava a minha vaca preta e a dele.
Esta manhã, estive com a Carol Olinda. Em volta da mesa de café, roíamos uns pãezinhos recheados de requeijão que remetem ao “pão delícia”, comum nos lanches do nordeste, principalmente na Bahia. A Carol se lembrou de umas férias que passou em família numa pousada em Porto Seguro. O irmão dela pegou insolação e eles passavam os dias dentro da hospedaria, abrigados do sol.
Ela se lembra de observar as cozinheiras baianas preparando os pães delícia. Comentou comigo que talvez o restaurante daquela pousada tenha sido o melhor onde já comeu na vida. E, veja, a Carol - natural do Cerrado, no coração do Brasil - conhece restaurantes pelos quatro cantos deste país. Lembrei imediatamente daquele restaurante do Clube e falei pra Carol que o Parmegiana que o Seu Valentin servia é a minha referência até hoje. Concluímos que o sabor se constrói, que o paladar a gente educa e desenvolve.
Mais importante de tudo, nossos sentidos à mesa extrapolam a refeição. A memória divaga para muito além do prato. A receita é importante, mas o estado de espírito, muitas vezes até a nossa pré-disposição, são determinantes para definirem a experiência. A Carol, os pães delícia e a insolação do irmão dela na Bahia. Eu, aquela estufa em forma de restaurante e o Parmegiana sob o calor do norte paranaense. Curiosos desde crianças, mesmo diante de tantas intempéries, a gente sempre soube apreciar e sermos felizes à mesa. E que assim seja.

