A Xepa, com André Bezerra e convidados

A Xepa, com André Bezerra e convidados

A Xepa

A cozinha antes de mim

29/01/2026 12:00
Thumbnail

Crédito: Bigstock

Por Nina Coratina*
Eu sabia que tinha pão no forno antes mesmo de entrar em casa. O cheiro quente e levemente adocicado avançava pela entrada, misturado ao vapor do requeijão esfriando na panela. Largava a mochila no chão e ia direto para a cozinha. Minha casa era viva.
Naquele tempo, o mundo tinha esse tamanho: forno aquecido, mesa posta, panela suja e o som contínuo de algo sendo mexido. Nada parecia especial. Só hoje percebo quão extraordinário era.
Antes dos dez anos, quase todas as minhas memórias felizes estavam ali, não como lembranças organizadas, mas como experiências vívidas. Cheiro, gosto, a lembrança do vento soprando e Enya tocando ao fundo. A cozinha não era apenas um cenário; era presença.
Quando minha família decidiu abrir uma confeitaria, nossa casa precisou se adaptar. O trabalho acontecia fora, mas era em casa que os bastidores se organizavam. Caixas de barras de chocolate e de creme de leite invadiram os corredores, estreitando o caminho. A lavanderia se transformou em cozinha de segredos, onde fazíamos o pão de ló e os recheios, repetidos à exaustão.
Meu pai também ocupava esse espaço. Preparava o pão de ló, deixava tudo pronto para o dia seguinte e fazia o que precisava ser feito. Não havia sonho ou vocação por parte dele, apenas responsabilidade. O imóvel era deles. O risco também.
No início, era só a família. Preparávamos tudo para a manhã seguinte, inventando soluções à medida que fazíamos. Aprendíamos no gesto. Minha mãe conduzia a cozinha, conferia o forno, ajustava uma receita, deixava outra para depois. Havia cansaço e uma alegria silenciosa, difícil de nomear.
Em uma dessas noites, levamos a televisão para a cozinha para ver o final de Rei do Gado. O barulho das batedeiras e o cheiro doce no ar se misturavam às encomendas sendo separadas. A história passava na tela enquanto a nossa se desenrolava ali.
Foi nesse ambiente que inventei um salgado que, muitos anos depois, ainda existe. Era algo simples: sobras de massa, retalhos de queijo, o requeijão que eu mais gostava, fatias de tomate e manjericão fresco. Para um adulto, poderia parecer trivial, mas para uma criança, era um mundo inteiro. Hoje sei que não era apenas uma receita; era confiança.
Na mesma época, minha mãe criou um bolo que se tornaria referência na cidade. A receita nunca foi escrita, circulava apenas entre nós, protegida como segredo de família. O irmão mais novo dos três assumiu a execução. Virava noites preparando o recheio, repetindo gestos, acertando ponto, sustentando o ritmo quando a casa já estava em silêncio.
Ele me pedia para ficar por perto, fazendo companhia. Quando o cansaço vencia, eu cochilava em caixas de papelão, embaixo da mesa, enquanto ele seguia trabalhando. Antes de ir dormir, raspávamos as panelas. Depois, íamos dormir com o gosto doce ainda na boca. A criação era dela. O trabalho, dele. E eu crescia ali, assistindo tudo de dentro.
Meus irmãos, mais velhos que eu, assumiam outras responsabilidades naquele espaço. Um deles perguntou à minha mãe se ela já tinha visto crianças atendendo clientes em confeitarias concorrentes. Eu não respondi. Já estava atrás do balcão. Era xereta. Quando se davam conta, eu já estava atendendo, pegando pães ainda quentes e crocantes, cobrando no caixa com uma seriedade que não combinava com o meu tamanho. Gostava de agradar. Se alguém pedia dez, eu colocava doze. Era meu jeito de cuidar.
Com o tempo, aprendi a reconhecer o cansaço antes mesmo de entendê-lo. A cozinha não era um lugar para romantizar. Dali vinha o sustento. As encomendas precisavam sair, o forno aquecer, o dia seguinte existir.
Ainda me lembro do dia em que meu pai foi me buscar na escola na inauguração da confeitaria. Abriu os braços como Ayrton Senna cruzando a linha de chegada. Vitória. Anos depois, seria ele quem diria: “Olha o cansaço da sua mãe.” Um aviso disfarçado de preocupação.
Enquanto isso, minha mãe seguia. Sustentava decisões sem alarde, corrigia rotas e avançava mesmo quando tudo parecia pedir mais do que ela tinha para dar. E eu aprendia que cozinhar não era fazer comida; era presença.
Com o tempo, a cozinha cresceu. Eu cresci junto. Repeti gestos, absorvi ritmos. A faca na tábua, a porta do forno, a panela no fogão. Minha formação não veio como escolha, mas por convivência.
Hoje, quando entro numa cozinha, meu corpo reconhece antes da minha cabeça. Há gestos que herdei, decisões que assimilei. Muito do que sou veio de antes; veio de uma mulher que aprendeu a empreender enquanto sustentava tudo ao redor, e de um homem que tomava decisões com os pés no chão.
Hoje, essa cozinha está em outro endereço. Outros fornos.
Mas o que veio de antes ainda fermenta aqui, silenciosamente.
Entre massas e coberturas, eu e minha mãe seguimos trabalhando juntas.
Pode-se chamar de escolha. Pode-se chamar de destino.
Eu chamo de herança.
*Nina Coratina é chef, pizzaiola e cofundadora da Coratina Pizzaria & Forneria, em Curitiba. Construiu sua formação entre a prática cotidiana da cozinha e uma trajetória contínua de estudo, criação e trabalho. Dedica-se a tudo o que envolve comida, memória e presença, tratando a cozinha como linguagem viva e herança.