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Café fake: saiba como driblar a falsificação com dicas de quem entende do assunto
Nas últimas semanas, circulou pelas redes sociais imagens de produtos em pó comercializados no Brasil como café, mas que, na realidade, continham resíduos de café, outras polpas vegetais e aromatizantes artificiais. O pacote de uma dessas bebidas, que ganhou o nome de café fake, apareceu com o preço de R$ 13,99. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), em janeiro deste ano o preço médio do café torrado e moído nos supermercados foi de R$ 56,07.
Só que a regra é clara, e não é de hoje. Resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 1978 permite até 1% de resíduos no café in natura, ou seja, o grão. Em 2022, uma portaria do Ministério da Agricultura estabeleceu que o café torrado que apresentar teor de impureza ou matéria estranha acima de 1% é considerado impróprio para o consumo.
Ao lado da cenoura (17,62%), o preço do café moído foi o produto da cesta de alimentos que mais subiu no mês de fevereiro, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgado esta semana pelo IBGE - o indicador é uma prévia da inflação. No ano passado, foi um dos itens alimentícios que registrou maior alta: 39,6%, também conforme o ÍIPCA, contra 4,83% do índice geral de inflação.
Entre os fatores que contribuem para o preço elevado do café estão questões climáticas que se arrastam há praticamente cinco anos. "Em 2021, foram as geadas; em 2023, uma estiagem severa. Em 2024, reflexo do La Niña, chuvas tardias e tempestades que trouxeram impactos negativos para a lavoura do café", detalha Pavel Cardoso, presidente da Abic. A dificuldade logística enfrentada pelo Vietnã, segundo maior produtor global, atrás apenas do Brasil, em transportar o grão para a Europa, somada à variação do dólar elevou a cotação do café, acrescenta o executivo.
Dados da associação mostram que o Brasil consumiu 21,7 milhões de sacas em 2024. Ainda segundo a entidade, o consumo per capita foi de 6,26kg por ano de café cru, e 5,01kg por habitante no ano passado.
"Com a intenção de burlar a legislação e enganar o consumidor, algumas empresas têm tentado enquadrar a mistura intencional de impurezas no café em outras categorias de alimentos, mantendo-se a identidade visual parecida com o café verdadeiro. Trata-se do 'Café Fake / CaFake', ou seja, produto que parece café, mas não é", diz nota da Abic divulgada em 31 de janeiro passado. "O denominado 'pó para preparo de bebida tipo ou sabor café', não é café e pode ludibriar o consumidor", prossegue o documento. Associação informa ainda que a oferta direta ao consumidor de café misturado com "resíduos agrícolas, matérias estranhas e impurezas como cascas, palha, folhas, paus ou qualquer parte da planta exceto a semente do café" é passível de multa e apreensão.
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"Os cafés fakes existem há muito tempo no mercado", lembra Daniel Munari, sócio-proprietário do Royalty Quality Coffee. "Sempre foram usados como uma solução para pessoas que, por qualquer motivo, não podem consumir cafeína por escolha própria ou restrição", informa. Munari é bicampeão da Coffee in Good Spirits, competição brasileira que avalia as habilidades de baristas na composição de drinks alcoólicos com café.
Como driblar o café fake
A Abic conta com os selos de Pureza e Qualidade, unificados desde 2023. A certificação é concedida a partir de uma análise metodológica sensorial, e classifica os cafés em cinco categorias: Especial, Gourmet, Superior, Tradicional e Extraforte. A empresa é também auditada quanto a boas práticas de fabricação e de todo o processo de industrialização.
"Na grande indústria, os selos de pureza da Abic são uma garantia de que o que você esta consumindo é café de fato", destaca Munari. "Mesmo que, tecnicamente, a qualidade da bebida não seja a melhor devido à matéria-prima mais simples usada, ainda é café", informa. Assim, uma maneira prática de identificar se o produto na gôndola é ou não café real é constatar se, na embalagem, há o selo da Abic.
Ler atentamente as informações da embalagem é fundamental. Produtos que não são 100% café podem apresentar descrições como "bebida com sabor de café" ou "sabor artificial de café". É importante ler o rótulo com atenção para identificar possíveis aditivos ou substitutos.
Desconfiar de preços muito baixos é outra maneira de fugir do fake, orienta a associação. A subida nos preços do produto é o cenário ideal para o surgimento de de produtos de baixa qualidade ou adulterados a preços muito inferiores aos praticados no mercado. Se o preço estiver significativamente abaixo da média, confira a procedência e a composição do produto. A Abic identificou produtos sendo vendidos por cerca de um terço do preço do café regular, levantando preocupações sobre sua autenticidade.
Nessas horas, marcas reconhecidas e estabelecimentos de confiança fazem diferença. É um bom caminho para fugir de produtos adulterados. Empresas consolidadas no mercado se estabelecem por manter padrões de qualidade mais elevados e são fiscalizadas regularmente.
Observe o aspecto e o aroma do produto. Poucos itens alimentícios são tão perfumados e claramente identificáveis pelo olfato como o café. Há ainda uma série de características que são próprias do produto, como cor, textura e aroma. Alterações nesses aspectos podem indicar a presença de impurezas ou adulterações. Ao preparar o café, preste atenção em mudanças no sabor ou no aroma que possam sugerir a presença de componentes estranhos.
A denúncia continua sendo uma boa maneira de derrubar falsificações e falsificadores. O Procon e a própria Abic são canais importantes para a denúncia. A participação ativa dos consumidores é essencial para manter a qualidade e a segurança dos produtos disponíveis no mercado.
"As torrefações artesanais, ou de cafés especiais, se tornaram uma opção mais próxima da realidade", sugere Munari. "A diferença dos preços em relação ao café de mercado diminuiu, permitindo que mais coffee lovers possam considerar café de qualidade superior nos seu dia a dia". O barista destaca que já é possível achar pacotes de 250g de cafés especiais a R$ 40. "Parece muito mais, mas essa distância já foi muito maior no passado", informa.
Para Munari, a discussão suscitada pelo café fake é o momento ideal para tratar o café com mais respeito, "com preocupação em extrair o melhor de café grão para aproveitar aquilo que estamos consumindo".
A Abic informa que notificou o Ministério da Agricultura e a Anvisa sobre o café falso e tem alertado as redes de varejo sobre o problema.