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Linguiça de pernil, recheada com tomate seco e rúcula da Charcutaria Escorsin.

Receitas e Pratos

A paixão e a arte por trás da charcutaria

Patrícia Sankari, especial para Bom Gourmet
15/05/2023 17:00
Uma técnica antiga, fundamental para conservação de alimentos em períodos de poucos recursos, está ganhando força no mercado. A charcutaria tem sido impulsionada pela alta gastronomia e pelo trabalho artesanal de produtores e vem conquistando os consumidores tanto pela sua saudabilidade em comparação aos embutidos industrializados quanto pelo seu sabor e qualidade.
A busca por produtos artesanais começou a ganhar força em diferentes frentes, como nas cervejarias e hamburguerias. Um dado que ajuda a visualizar o tamanho do mercado de produtos artesanais vem da Associação Brasileira de Franchising, que registrou, só em 2017, a movimentação de mais de R$ 700 milhões em franquias ligadas a hambúrgueres artesanais no país. Nesse período, a produção artesanal e a elaboração de produtos do zero, como pães e hambúrgueres, ganhou visibilidade no mercado, indo além das hamburguerias, chegando aos embutidos que, desde então, vêm sendo cada vez mais procurados pelo consumidor.
Manta de puro pernil recheada com queijo colonial da Charcutaria Escorsin.
Manta de puro pernil recheada com queijo colonial da Charcutaria Escorsin.
Embora não haja dados consolidados sobre o volume que esse mercado movimenta, é certo que a charcutaria artesanal é promissora no país e chamou a atenção da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade lançou a segunda edição do Prêmio Brasil Artesanal – Charcutaria em 2023. Em 2020 a charcutaria gaúcha Zampa Grigia, de Carlos Barbosa (RS) foi a vencedora. A lista dos finalistas deste ano foi divulgada em abril e contempla um produtor paranaense, a Charcutaria Caravaggio, de Catanduvas.
Percebendo esse movimento e acreditando na orientação para a construção de um mundo cada vez mais artesanal, o professor e entusiasta da gastronomia artesanal Rene Seifert, divulga seu trabalho de panificação e charcutaria pelo canal do Youtube ‘o Pão da Casa’. Mas ele sentiu que precisava ir além. Foi assim que se uniu com o chef charcuteiro Giordano Tarso, à frente do restaurante Colheita Butique Sazonal, que fica em Pinto Bandeira, no Rio Grande do Sul, para ensinar a arte de conservar e transformar produtos.
Rene Seifert e Giordano Tarso.
Rene Seifert e Giordano Tarso.
Ambos se conheceram em eventos de gastronomia e notaram a afinidade que têm como defensores dos ingredientes e da cultura locais e artesanais. Giordano Tarso tem como foco a gastronomia na ancestralidade, com pouca ou nenhuma tecnologia envolvida. Ele é considerado ‘o homem da charcutaria no Rio Grande do Sul’ e, seguindo a tradição dos avós de conservar a carne sem a necessidade de refrigeração, ele já ensinou essa arte milenar para dezenas de pessoas, inclusive para Rene.
Após ser aluno de Giordano, o inquieto Rene levou a sério a ideia de levar esse conhecimento a mais lugares. Assim, os dois organizaram o primeiro curso de charcutaria da plataforma O Pão da Casa em 2022. “Lançamos o primeiro curso online juntos e teve um resultado bem legal! Em 2023 estamos lançando o segundo. No primeiro, focamos nos defumados, no bacon, linguiças frescas e curados. Agora, no módulo dois, trouxemos calabresa, presunto cru, além dos cozidos”, explica Rene.

De geração para geração: conheça mais sobre a arte da charcutaria

Porção de linguiça do Vô Tide, com a receita do avô resgatada pelo Aristides.
Porção de linguiça do Vô Tide, com a receita do avô resgatada pelo Aristides.
Os conteúdos apresentados por Giordano Tarso e Rene Seifert contempla, além de receitas detalhadas e com passo a passo, um acompanhamento personalizado do chef Giordano para tirar dúvidas. “Montamos os cursos na lógica de ‘use aquilo que você tem’. Por exemplo, ensinamos a fazer bacon defumado em uma panela. Assim, qualquer um pode fazer em casa com coisas simples, sem ter muito equipamento específico. Afinal, esse movimento de resgate da charcutaria artesanal é para a gente redescobrir o potencial que temos de fazer um produto de excelência e qualidade com as nossas mãos, em casa e com os acessórios que temos disponíveis”, reforça Rene.
Do francês, o termo “charcuterie” une as palavras carne (chair) e cozido (cuit) e define a arte do preparo de carnes, geralmente de porco, usando diferentes técnicas para preservar, conservar e melhorar o sabor e a textura dos cortes. Feita de maneira artesanal e tradicional, a charcutaria não usa conservantes e aditivos químicos. Por isso, utiliza outros processos, como a cura, a defumação e a fermentação.
Na cura, a umidade da carne é diminuída a partir da salga. Usa-se o um porcentual do peso do insumo em sal e, em alguns casos, um pouco de mel e açúcar, além de temperos que variam de acordo com a receita de família ou do negócio. É um processo comum na feitura de linguiças, carne seca e de salsichas.
Um dos processos tradicionais da América é a defumação, ou seja, a exposição da carne à fumaça, que age como bactericida. A defumação é uma das maneiras de conservação do alimento e é muito usada na produção de presuntos e copa lombo.
A fermentação, mais comum em salames, leva um período de, no mínimo, 30 dias. O embutido é preparado com sal, açúcar e temperos diversos, e é colocado para curar. Durante o processo de cura, bactérias e fungos agem sobre a carne, produzindo ácido lático e demais componentes que farão com que o pH do produto fique ácido. Assim, bactérias invasoras que poderiam degradar a carne não conseguem se multiplicar.
Antes de aplicar qualquer uma destas técnicas, o charcuteiro precisa saber o que tem em mãos. “Um dos fatores mais importantes para a charcutaria é a procedência do insumo. Quando eu percebi que os meus embutidos não estavam dando muito certo devido à qualidade da carne, fui criar porcos”, explica, aos risos, Rene Seifert.
Defumados de bacon da Charcutaria Escorsin.
Defumados de bacon da Charcutaria Escorsin.
Para a proprietária e chef de produção da Charcutaria Escorsin, Julliana Escorsin, a qualidade superior e o sabor são perceptíveis em comparação aos industrializados. “Por exemplo, usamos toucinho, que é a melhor gordura do porco, temperos naturais e a defumação é totalmente artesanal, feita com lenha frutífera. Tudo isso contribui para o resultado”, detalha.
A empresa, localizada em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, está há dois anos no mercado e atualmente tem 18 sabores de linguiça à base de frango ou pernil, além de produtos defumados, como bacon e calabresa, e mantas de carne recheadas. Julliana começou a charcutaria como hobby após viajar à Itália com a família. Ao provar os embutidos locais, ela ficou impressionada com a qualidade e sabor. A prática logo virou negócio quando Julliana viu que seus amigos e família gostavam do que ela preparava. “Ver as pessoas saboreando é o que mais me marca. Ficou muito evidente que era diferente do industrial”, relembra.
À mesa, o sabor é soberano, mas o consumo de embutidos enfrenta uma questão muito debatida: a saudabilidade. “Tem gente que acha que a linguiça não pode ser consumida, porque tem uma alta porcentagem de gordura e conservantes. Realmente, na industrial você tem esse problema. Mas a artesanal é um produto mais saudável”, explica Julliana.
Não ter aditivos químicos é uma das características que depõe a favor dos embutidos artesanais. Com foco na produção para consumo próprio, Rene vê a demanda pelos cursos crescer ano após ano, como uma busca pela autonomia alimentar e para aprender a produzir seu alimento do zero.
A experiência de preparar embutidos é uma velha conhecida de Aristides Neto, proprietário da Linguiçaria Vô Tide. Desde criança, Aristides acompanhava a produção do avô açougueiro. O neto entrou na profissão em 2022, mas preparava em casa há mais de cinco anos. “Hoje meu foco é produzir linguiça para o choripan que vendo”, conta Aristides. “Quando montei meu restaurante, resgatei a receita do meu avô. Produzir a própria linguiça para o sanduíche é um diferencial para os clientes”, aponta.
Choripan com vinagrete da Linguiçaria Vô Tide, o mais tradicional da casa.
Choripan com vinagrete da Linguiçaria Vô Tide, o mais tradicional da casa.
Apesar de ter crescido vendo o avô trabalhar, em 2018 que Aristides começou a participar de cursos de charcutaria para aprender a fazer copa, salames, presunto cozido, presunto cru, bacon, entre outros. “Nos últimos anos, o público passou a ser mais seletivo e a priorizar o artesanal, o sabor dos alimentos e dos produtos caseiros”, analisa.

Serviço:

Charcutaria Escorsin 
Compras e encomendas apenas no site: www.charcutariaescorsin.com.br
Entregas via delivery.
Whatsapp: (41) 9 8787-6008.
Linguiçaria Vô Tide
Av. Sete de Setembro, 4.838, Loja B, Batel.
Whatsapp: (41) 9 9987-8888
Cursos de charcutaria com Rene Seifert e Giordano Tarso. www.paodacasa.com.br