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Com saudades de casa, refugiados mostram como é a culinária venezuelana no Brasil
Há cerca de quatro anos, o médico Nelson Quintero Vasquez cansou de ver a sua Venezuela ruir nas mãos do regime de Nicolás Maduro, e decidiu tentar uma nova vida no vizinho Brasil. Ele deixou a família e amigos em Maracaibo quase ao mesmo tempo em que o dentista Aaron Trujillo foi embora de Caracas para fazer um mestrado – e não voltar mais. Bastou menos de um ano para eles se conhecerem já em Curitiba e criarem uma amizade a ponto de juntarem a saudade de casa ao redor da mesa.

No começo de dezembro eles abriram o Budare 58, o primeiro restaurante de Curitiba especializado na culinária venezuelana e um dos poucos no Brasil a servir arepas e patacones como manda a receita tradicional. Os pratos nada mais são do que um pão de fubá frito com diversos recheios e pedaços de bananas verdes fritas com vários acompanhamentos.
Difícil não confundir com a culinária colombiana, que é muito parecida e comum nesta porção Norte da América do Sul. No entanto, Nelson conta que os vizinhos comem estes pratos mais como acompanhamentos. Já os venezuelanos os provam como principais no almoço e no jantar.
“Isso é o que diferencia a culinária da Venezuela e da Colômbia. Apesar de serem muito parecidas, com uma mesma base por conta da colonização e dos hábitos, as arepas viraram comidas para comer tanto no café da manhã como em qualquer outra refeição. E os patacones, que são mais como um acompanhamento para os colombianos, ganham um destaque a mais na comida venezuelana”, explica.
A empreitada dos amigos, que começou com Nelson e a esposa Brenda Castellanos, vai além de apenas servir seus pratos típicos para matar as saudades de casa. Nelson conta que quer mudar a percepção dos brasileiros sobre a crise dos refugiados. Para ele, se criou um preconceito desnecessário sobre os imigrantes venezuelanos.
“Nós queremos mostrar que trabalhando e estudando dá pra conseguir qualquer coisa sem interferir na vida de ninguém. E também é um meio para ajudar nossos familiares que continuam sob o regime chavista”, explica. A mãe, os avós e uma tia dele ainda moram na Venezuela, mas ele deve trazê-los ao Brasil no ano que vem. Já a mãe e a irmã de Brenda chegam na próxima semana.

Por outro lado, a situação de Aaron é um pouco diferente. Ele veio ao Brasil em 2014 para fazer um mestrado e por aqui ficou por recomendação da mãe. Ela veio para acompanhar a defesa dele, e recomendou que não voltasse à Venezuela.
“Ela falou pra mim que seria bom tentar ficar, pois a situação no país estava muito difícil. Eu já tinha vontade de ficar e estender para um doutorado, aí a coordenadora me convidou e continuei por aqui. Mas foi bem difícil, trabalhei como garçom, auxiliar de pizzaria, de uma clínica de radiologia, e hoje continuo fazendo vários trabalhos além da odontologia e agora também com o restaurante”, conta. A mãe e o irmão dele ainda moram em Caracas.
Comida típica

A ideia de abrir o Budare 58 surgiu há pouco mais de um ano durante uma tarde despretensiosa no Mercado Sal. O formato simples e informal de servir chamou a atenção deles, e então se perguntaram por que não abrir algo assim, mas servindo pratos venezuelanos.
“A culinária da Venezuela é pouco conhecida dos brasileiros, principalmente para quem mora em Curitiba. A gente quer dar às pessoas um cantinho do país, para que experimentam os sabores diferentes de lá”, explica Nelson.
A experiência com a culinária venezuelana já começa pelo nome. Budare é a denominação da chapa usada para preparar as arepas e 58 é o código de discagem direta internacional do país – assim como o 55 é do Brasil.
No enxuto cardápio estão as arepas recheadas com feijão venezuelano e queijo (R$ 15) ou frango com abacate (R$ 22) e os patacones cobertos com costela ou frango desfiado (a partir de R$ 16).

Há ainda o Pabellón Criollo, um prato típico com carne desfiada, arroz, feijão e patacones servido apenas na hora do almoço (R$ 20), e os petiscos de Tequeño (enroladinho de queijo envolto em massa de trigo frita com molho tártaro ou ketchup) e Toston (pedaços de banana verde frita com cobertura de queijo derretido) a partir de R$ 12.
Nelson conta que foi um pouco difícil acertar a farinha para preparar as arepas, testando vários tipos vendidos no Brasil. Mas, no final, deu certo e “conseguimos deixar 99% parecida como a que fazemos na Venezuela”, completa.
O Budare 58 abre diariamente no mesmo horário da Vila Urbana.
Serviço: