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Foto: Letícia Akemi / Bom Gourmet

Pessoas

Brasileiro colecionador dos pratos da Boa Lembrança usa até o teto de casa como galeria

Marina Mori
29/12/2019 00:00
Cada pessoa tem seu jeito de guardar na memória uma boa refeição. O paulistano Anesio Fassina, de 63 anos, encontrou o seu há quase duas décadas. Boa parte dos melhores jantares e almoços que teve ao longo desse período estão eternizados em pratos temáticos pintados à mão que se transformaram em uma galeria inusitada: 1.030 peças de louça presas às paredes e até ao teto de sua casa de campo em Itatiba, no interior de São Paulo. Em 2020, ele estima que sua coleção somará 2020 pratos.
Todas as peças fazem parte de um projeto tradicional no Brasil – a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança. Criada em 1994 pelo chef italiano Danio Braga (em uma homenagem à versão italiana da tradição, o Buon Ricordo), a entidade produz uma série de pratos artesanais e exclusivos por ano. Cada um dos 99 restaurantes associados nas cinco regiões do país tem o seu e, para consegui-lo, é preciso sentar-se à mesa e comer o preparo temático do ano definido pelo chef do estabelecimento. Barriga cheia e conta paga, lembrança entregue ao comensal.
Foto: Letícia Akemi / Bom Gourmet
Foto: Letícia Akemi / Bom Gourmet
A saga de Anesio Fassina começou de forma inesperada em 1999. O paulistano estava em um jantar de fim de ano com os colegas (trabalhou até há pouco tempo na área financeira) no restaurante Guimas, no Rio de Janeiro. Depois que cada um pagou sua conta, o mâitre do estabelecimento entregou um prato colorido e pintado à mão a um de seus amigos. “Eu logo quis um igual, então me explicaram que aquela peça fazia parte da Boa Lembrança”, conta ele.
O amigo detentor do prato ficou tão comovido com a empolgação de Fassina que lhe entregou o prato de bom grado. Foi o que bastou para que ao longo de todo o ano seguinte ele começasse um hábito divertido. Sempre que ia a um restaurante, esticava o olhar pelas paredes em busca de um prato da Boa Lembrança.
Assim que flagrava uma peça, escolhia no cardápio a refeição que lhe garantiria o brinde. Chegava em casa e posicionava o item na parede de casa. A brincadeira, então, ganhou tom de desafio: a linha de pratos que Fassina montou ao longo do ano só ficaria completa com apenas mais uma peça. “Foi quando fiz minha primeira viagem para pegar o 11º prato”.
Problema resolvido depois de uma conexão SP-RJ seguida de um almoço no restaurante carioca O Navegador. Linha de pratos completa, sossego para o olhar do paulistano. Até que, quatro anos depois, em 2004, ele, a esposa e a irmã embarcaram em uma viagem de férias à Itália. Não fosse por isso e talvez Fassina não tivesse se tornado um colecionador inveterado.
As peças são organizadas por ordem alfabética e de acordo com o ano em que foram lançadas.
As peças são organizadas por ordem alfabética e de acordo com o ano em que foram lançadas.
O paulistano estava no restaurante ‘A Fenestella, em Nápoles, quando avistou pratos parecidos com os que tinha estampados na parede de casa. “Eram do Buon Ricordo, o projeto que deu origem à Boa Lembrança no Brasil”, relembra. “Ficamos quase cinco horas conversando com o dono do restaurante. Ele disse que naquele ano o Buon Ricordo estava fazendo 40 anos [hoje tem 55], depois me deu uns pratos de presente, um livro. Fiquei apaixonado pela história”.
Naquele momento, o roteiro da viagem mudou por completo. Anesio Fassina cruzou a Itália para visitar inúmeros restaurantes em cidades diferentes que tinham os pratos colecionáveis. Voltou com duas dezenas na bagagem. Em uma visita recente, seu planejamento foi ainda mais rigoroso. “Saí do Brasil com reservas em restaurantes em mais de 20 cidades”, conta ele.
De prato em prato, o paulistano se tornou o maior colecionador dos pratos da Boa Lembrança no Brasil. Quando as paredes de casa não tinham mais espaço, ele deu jeito de posicionar as novas peças no teto da residência da família no interior.
Sua organização detalhada (cada prato é exibido em linhas de ano de lançamento e em ordem alfabética) lhe permitiu, inclusive, compilar a coleção em um livro de 268 páginas com as fotos e as receitas que acompanham cada lembrança. Resultado? Fassina ganhou o prêmio Gourmand Internacional como melhor livro do ano em 2017. Foi para a China buscar o prêmio e agora se prepara para a edição de 2020, que tem tudo para ser emblemática.

Lábia e convencimento

Anesio Fassina começou sua coleção 10 anos depois que a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança havia sido inaugurada no Brasil. “Por isso, a batalha foi grande para ir atrás dos colecionadores mais antigos para conseguir os primeiros pratos”, explica ele. Não foi fácil, mas deu certo. “Eu dava um, dois, ou até três da minha região, em troca de um específico”, conta.
Seu convencimento mais difícil ocorreu em 2016, depois de 15 anos em busca da peça. “Era um prato que ninguém tem, colecionador nenhum que conheço tem. Ele foi criado para um evento no Rio de Janeiro, uma festa para celebrar o nascimento da Brasil Telecom”.
Entre as histórias divertidas sobre as conquistas de pratos raros, este é um dos que mais marcaram Anesio. O antigo dono viajou do Nordeste a São Paulo para entregá-lo em mãos.
Entre as histórias divertidas sobre as conquistas de pratos raros, este é um dos que mais marcaram Anesio. O antigo dono viajou do Nordeste a São Paulo para entregá-lo em mãos.
Acontece que um compadre de Fassina estava em Salvador, na casa de um amigo, quando lhe mandou uma foto. “‘Tem algum desses que você não tem?’, ele me perguntou. Eu quase enfartei”, relembra, rindo. Depois de muita conversa, o dono do tal prato decidiu presentear Anesio com a peça. “Ele veio de Salvador para cá [São Paulo] para me fazer uma entrega solene. Foi de chorar”, diz o paulistano.

“Viajo para comer”

No início de cada ano, o colecionador traça um plano de viagens em busca de todos os novos lançamentos da Boa Lembrança. “Quando chega janeiro, sei que tenho que ir atrás de 80, 90 pratos”, explica ele.
Além das peças feitas pelos restaurantes, tem também aquelas produzidas para eventos especiais, como o tal prato da história acima. Isso faz com que Anesio mantenha um relacionamento com centenas de pessoas. “O bom disso é que você acaba criando vínculos com gente do Brasil inteiro. Eu viajo para comer, mas também para fazer amigos”.
Entre essas amizades estão as responsáveis pela criação de cada prato. Há pouco mais de um mês, Anesio organizou um churrasco em casa para receber as funcionárias da Van Erven Cerâmica, a fábrica de Petrópolis (RJ) que desde o início da Associação, em 1994, produz as peças artesanais. “Ele é sensacional. Já vimos outros colecionadores, mas como o Anesio eu nunca vi. Ele tem uma verdadeira adoração pelos pratos da Boa Lembrança”, comenta Fátima Oliveira Carvalho, administradora da empresa há 19 anos.
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