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Pessoas

Cinco mulheres querem fazer os melhores vinhos do Brasil

Guilherme Grandi
31/03/2019 17:00
A região da Campanha, no extremo sul do Rio Grande do Sul, descobriu há pouco tempo que tinha uma vocação a mais do que apenas ter um dos melhores gados de corte do país — a da produção de vinhos de qualidade. E foram cinco mulheres as responsáveis por iniciar a nova cultura na região próxima ao Uruguai.
Peruzzo, Ravache Ayub, Hermann Pötter e Mércio são sobrenomes que eram ligados tradicionalmente apenas à pecuária. E foram as mulheres — Clori, Hortência, Gabriela, Mônica e Victoria — que definiram os novos rumos da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. A entidade é relativamente nova, foi criada há menos de uma década. Já a produção vinícola é um pouco mais antiga, começando timidamente na década de 1970 e aumentando no início deste século. Mas, foi apenas em 2018 que os novos rumos da Campanha foram delineados.

O início

De uma família de supermercadistas da região, Clori Peruzzo assumiu um cargo que ninguém queria encabeçar. Foto: Julio Soares/divulgação.
De uma família de supermercadistas da região, Clori Peruzzo assumiu um cargo que ninguém queria encabeçar. Foto: Julio Soares/divulgação.
De uma família de supermercadistas da região, Clori Izabel Peruzzo foi eleita presidente da associação por unanimidade, sem concorrentes. Ninguém queria assumir a tarefa de conduzir a Campanha para o futuro. Ela, que abriu a própria vinícola em meados de 2002, viu que muito poderia ser feito.
Eleita com uma “mão de ferro delicada”, chamou outras quatro companheiras – como apelidou – e formou a diretoria feminina da associação. Todas deram seus pitacos sobre o que querem para a Campanha.
“Nós estamos com grandes objetivos a desenvolver, montamos um planejamento estratégico e queremos tornar a Campanha Gaúcha um destino principalmente turístico (em algumas vinícolas, já corresponde a 1/4 do faturamento), não apenas uma referência na produção de vinhos. É um projeto para já, no máximo dois anos, para que mais e mais pessoas conheçam a imensidão do Pampa”, conta Clori.
A ideia das cinco mulheres é mostrar que a Campanha pode ter os melhores vinhos do Brasil por estar no mesmo paralelo das vinícolas mais premiadas da Argentina, Chile, África do Sul e Califórnia (no hemisfério norte).

Juntas vamos mais longe

Se precisar ir para o vinhedo colher uvas, Gabriela vai sem pensar duas vezes. Foto: Julio Soares/divulgação.
Se precisar ir para o vinhedo colher uvas, Gabriela vai sem pensar duas vezes. Foto: Julio Soares/divulgação.
Se há algo que as cinco mulheres viram que faltava na Campanha Gaúcha era uma articulação de interesses. Gabriela Hermann Pötter, engenheira agrônoma e proprietária da Vinícola Guatambu, explica que antigamente tudo era muito centrado no isolamento das propriedades. Criava-se gado e pronto, cada um com o seu rebanho. O mesmo acontecia com a agricultura.
Mas, quando as mulheres começaram a compreender que os negócios poderiam ir além – muitas delas filhas de pecuaristas que foram estudar na cidade grande e retornaram para o campo com novas ideias – tudo passou a conspirar a favor. E o isolamento de cada propriedade deu lugar a uma união de forças.
“Se abriu um espaço na região da Campanha, porque essa é uma produção que se exige mais detalhes que a pecuária ou de commodities como que estavam acostumados. Essas outras atividades são importantes, mas nós estávamos cansadas já, e queríamos ir além. E a gente tem paixão por isso”, resume Gabriela sobre a palavra que explica o empenho delas sobre as tradições locais.

Derrubando tradições

Hortência cravou que a vinícola deveria ser feminina desde o começo, com ela e as filhas no comando. Foto: Julio Soares/divulgação.
Hortência cravou que a vinícola deveria ser feminina desde o começo, com ela e as filhas no comando. Foto: Julio Soares/divulgação.
Hortência Ravache Ayub foi a primeira a levantar a bandeira de abrir uma vinícola feminina. Assim mesmo, direta ao ponto. No começo dos anos 2000 ela implantou a Campos de Cima na longínqua Itaqui, para lá de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Um pequeno vinhedo de 15 hectares tocado por ela e as filhas Vanessa e Manuela.
“A gente acha que o vinho tem todo um lado feminino, um trabalho assim delicado, e que nós associamos muito à figura feminina da família. E foi aí que decidimos que a vinícola ficaria sob o comando das mulheres”, explica a carioca que trocou o calor e a praia do Rio de Janeiro pelo gélido Pampa do extremo sul do país.
Ela reconhece que foi um desafio tomar as rédeas do campo em uma região sempre tida como patriarcal, por conta da tradição pecuária. Apesar disso, Hortência acredita que o mundo do vinho é muito particular, com tantos detalhes na sua composição que só mesmo as mulheres conseguem entende-lo plenamente.
“Você precisa ter uma preocupação muito grande no vinhedo, durante a poda das uvas, na seleção dos frutos, e na relação com o consumidor. Tem que ter um olhar muito abrangente, mas também muito cuidadoso, e muita coragem para pensar em ir além do que se está fazendo. Arriscar em algo a mais”, analisa. Ela ainda faz uma analogia com o próprio papel da mãe, que vê a uva se desenvolvendo como um filho desde o plantio até o processamento final.

Em busca do selo de indicação de procedência

Victória e Monica Mércio travaram uma batalha para tornar o vinho brasileiro mais acessível frente aos importados. Foto: Julio Soares/divulgação.
Victória e Monica Mércio travaram uma batalha para tornar o vinho brasileiro mais acessível frente aos importados. Foto: Julio Soares/divulgação.
O questionamento se faz presente o tempo todo na casa de Monica e Victória Mércio, mãe e filha que estão aos poucos transformando a Estância Paraizo em uma vinícola de respeito. Afinal, a fazenda era dedicada à pecuária desde 1790, quando o coronel Thomáz Mércio fazia a guarda da fronteira Imperial contra os invasores espanhóis do sul do continente.
“A nossa luta aqui é tornar o nosso vinho mais conhecido e acessível a toda a população. A gente tem uma invasão de rótulos estrangeiros que chegam muito mais baratos do que os nossos próprios, e isso não faz sentido. Aqui mesmo a gente trabalha diuturnamente para produzir um vinho de altíssima qualidade, com um terroir comparável às melhores vinícolas do mundo, mas sofremos para levar nossos produtos ao mercado”, questiona Monica, com muito afinco de quem realmente vê um futuro promissor quando alguém olhar com bons olhos para o vinho nacional.
Ela e Victória trabalham juntas com a Embrapa para estabelecer o selo de indicação de procedência, o que pode ajudar a encampar ainda mais a qualidade dos vinhos da Campanha. Um primeiro passo para torna-los mais conhecidos assim como seus conterrâneos do Vale dos Vinhedos, na região centro-norte do Rio Grande do Sul.