Bom Gourmet
Muito mais que fondue: gastronomia suíça é rica em tradições e experiências que merecem ser vividas

Cada região da Suíça reserva especificidades e experiências que valem a pena ser descobertas. Crédito: Sinan Serin/Pexels (Canva).
O Rolex é um dos relógios mais celebrados do mundo. Marcou gerações com a mesma precisão com que marca as horas. Mas o que pouca gente lembra (hoje, talvez) é que ele nasceu na Suíça, país que construiu sua reputação global em torno da exatidão, da confiabilidade e de uma certa elegância silenciosa. Essa imagem atravessa séculos – e também molda a forma como os suíços se relacionam com algo muito mais cotidiano: a comida.
Quando o assunto são os sabores do país, alguns símbolos são tão celebrados quanto o Rolex: o fondue, os queijos e o chocolate formam a tríade mais famosa da culinária local. “Esses itens definitivamente merecem ser experimentados ao visitar a Suíça”, diz Franziska Zurmühle, head de marketing e vendas do Art Deco Hotel Montana, em Lucerna. Eles são, no entanto, apenas a porta de entrada para uma gastronomia muito mais vasta, que em grande parte segue fora do radar internacional. Cada região do país preserva especialidades próprias, muito valorizadas localmente, mas pouco conhecidas por quem vem de fora.

Lucerna está no centro geográfico do país e reúne muitos dos elementos que definem a paisagem suíça. O Lago Lucerna divide o nome com a cidade, enquanto os Alpes formam um cenário constante no horizonte. Com pontes históricas, muralhas e construções medievais preservadas, a cidade se tornou uma das mais emblemáticas do país também quando o assunto é tradição e identidade local.
Entre essas tradições está o Luzerner Chüggelipastetli, prato típico da cidade. A receita combina uma massa folhada crocante recheada com fricassê de frango em um molho cremoso preparado com cogumelos, passas e um toque de vinho branco. Tradicionalmente servido com arroz ou legumes, é um clássico da culinária doméstica da região. “É reconfortante, saboroso e tipicamente lucernense”, resume Franziska.

Esse mosaico regional se repete por toda a Suíça segundo a executiva. No sul, no Ticino, região de língua italiana, ganham destaque os risotos, as massas caseiras e a polenta. No oeste, na parte francófona do país, próxima à França, uma das especialidades são os filés de perca do Lago de Genebra, peixe de água doce característico da região, preparado na manteiga e servido com limão, ervas e batatas. Já no norte e no centro, nas áreas de língua alemã, aparecem pratos como o Rösti, conhecido no Brasil como batata suíça, e o Älplermagronen, mistura de macarrão, batatas, creme, queijo e cebolas, tradicionalmente acompanhada de compota de maçã.
Algumas receitas ajudam a revelar camadas ainda menos conhecidas dessa culinária. O Capuns, diz Franziska, é o prato mais famoso da culinária romanche e, ao mesmo tempo, um dos menos conhecidos fora da Suíça. A tradição romanche está ligada ao cantão de Graubünden, no sudeste do país, onde se fala o romanche, a quarta língua nacional suíça. O prato é preparado com folhas de acelga recheadas com uma mistura de massa, carnes curadas e ervas, cozidas em caldo e creme, muitas vezes finalizadas com queijo. Na mesma região, a sobremesa mais emblemática é a Bündner Nusstorte, torta de nozes com açúcar, creme e mel.

Em Lucerna, essa leitura contemporânea da gastronomia suíça encontra um endereço simbólico no Scala Restaurant & Terrace, localizado no Art Deco Hotel Montana, em uma colina com vista para o Lago Lucerna e para os Alpes. Premiado com 15 pontos no Gault&Millau, guia francês que é um dos mais celebrados do universo da gastronomia, o restaurante aposta em uma cozinha de inspiração mediterrânea, com referências do sul da Suíça, da Itália, da França e da Grécia, combinando técnica, ingredientes regionais e um cenário que faz parte da experiência.
Mais do que reunir sabores, essa abordagem ajuda a entender como a Suíça tem reposicionado sua gastronomia como parte essencial da experiência de viagem. Ao valorizar produtos locais, cozinhas regionais e paisagens que dialogam com o prato, o país amplia o olhar do visitante e abre espaço para uma relação mais profunda entre turismo, cultura e identidade.

Brasil: um mercado estratégico
O Brasil se tornou um mercado estratégico para o turismo suíço, e os números confirmam essa prioridade. “Absolutamente, o Brasil é hoje um dos nossos mercados prioritários de longa distância. Registramos crescimento de 21,2% em pernoites de brasileiros em 2024, e mesmo em 2025, com um crescimento mais moderado de 8%, continuamos vendo resultados sólidos”, afirma Fabien Clerc, Diretor do Turismo da Suíça no Brasil. Segundo ele, o viajante brasileiro se destaca por buscar experiências autênticas, gastar acima da média internacional e se envolver de forma profunda com o destino. “Eles não querem apenas visitar a Suíça. Eles querem vivê-la”, acrescenta.
Essa vivência passa, inevitavelmente, pela gastronomia. “Cada região tem suas especialidades únicas, e promovemos experiências que vão desde visitas a vinícolas e queijarias centenárias até restaurantes com estrelas Michelin em cenários alpinos espetaculares”, explica Clerc. A Suíça conta com 14 produtos com Denominação de Origem Protegida, transformando cada refeição em uma oportunidade de conhecer história, cultura e tradição.

O modelo suíço de valorização de produtos locais e de indicação geográfica guarda paralelos com iniciativas que ganham força no Brasil, especialmente no Paraná. O estado alcançou uma marca histórica: é o líder nacional no número de indicações geográficas (IGs), com 21 produtos certificados, incluindo a poncã de Cerro Azul, o café de Mandaguari, o queijo colonial do Sudoeste, além da broa de centeio e da carne de onça de Curitiba. Somente em 2025, foram reconhecidas sete novas IGs, consolidando o Paraná como referência nacional em produtos tradicionais.
Cada IG conta uma história, conecta consumidores à região de origem e reforça a atratividade turística de seu território. Clerc diz que a Suíça é pioneira nessa abordagem. “Temos uma tradição secular de produtos com indicação geográfica protegida: desde o queijo Gruyère AOP até os vinhos de Lavaux, Patrimônio Mundial da UNESCO. Cada cantão suíço possui suas especialidades, que contam a história local, e criamos rotas gastronômicas que conectam produtores com experiências turísticas”, revela. Entre as opções para os visitantes, estão colheita de uvas em Lavaux, degustação de vinhos em caves familiares centenárias, visitas a queijarias artesanais em Broc e passeios que unem cultura, produção local e paisagem.

Para brasileiros com poucos dias no país, Clerc sugere uma combinação estratégica de experiências clássicas e descobertas autênticas. “Em Zurique, o Mercado de Viadukt oferece produtos locais em ambiente moderno, e o restaurante Zunfthaus zur Waag proporciona culinária tradicional em ambiente histórico. Em Montreux, durante o festival de jazz, a música se mistura à gastronomia local. E em Interlaken, uma fondue no topo de uma montanha acessível por teleférico conecta culinária, natureza e cultura suíça de forma inesquecível”, indica. O segredo, conclui, é equilibrar ícones obrigatórios com experiências genuínas, permitindo que o visitante viva a Suíça em toda a sua diversidade.
Gastronomia suíça em Curitiba
Em Curitiba, parte da cultura gastronômica suíça pode ser experimentada em alguns restaurantes da cidade. O Chalet Suisse e o Le Réchaud oferecem cardápios que exploram diferentes pratos típicos da Suíça, enquanto o Château de Gazon e o Petit Château se destacam pelo fondue, preparado de maneira tradicional. Essas casas mostram como os sabores suíços, dos queijos aos pratos regionais, encontram espaço também no cenário local, oferecendo uma amostra da diversidade culinária do país europeu.


