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Pesquisas recentes da Abrasel e da ANR mostram preocupação dos empresários brasileiros de restaurantes com a alta inflação.

Mercado e Setor

Inflação preocupa a recuperação de 8 em cada 10 restaurantes brasileiros

Guilherme Grandi
09/05/2022 13:52
O fantasma da inflação voltou definitivamente a assombrar o bolso dos brasileiros – e não apenas daqueles que vão aos supermercados fazer as compras do dia a dia. Para oito em cada dez restaurantes brasileiros, a alta galopante dos preços será o maior desafio a ser enfrentado neste final de primeiro semestre e ao longo de todo o restante do ano.
É o que revelou a mais recente pesquisa setorial
realizada pela Associação Nacional de Restaurantes (ANR) e a Galunion
Consultoria com 14 mil estabelecimentos de Norte a Sul do país. Estes
representam 817 empresas entre operações independentes e redes alimentícias.
Segundo os empresários – que também são
consumidores, acima de tudo – os seguidos aumentos de preços dos alimentos e
bebidas estão pressionando os custos e afastando os clientes dos restaurantes.
Afinal, com um poder aquisitivo menor, a tendência é de sempre segurar ou
cortar os gastos.
A inflação oficial do país, calculada pelo Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), alcançou 1,62% em março, após
alta de 1,01% em fevereiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). São sete meses seguidos de aumento, com o segmento de
alimentos e bebidas registrado a maior alta – foram 2,42% apenas em abril, mais
que o dobro do segundo colocado, habitação, que subiu 1,15%.
Fernando Blower, diretor-executivo da ANR,
explica que a inflação está impactando diretamente na recuperação da maioria
dos negócios de gastronomia, eliminando os ganhos obtidos no final do ano
passado e início de 2022, quando o movimento de clientes e o faturamento
chegaram ou até passaram dos registrados antes da pandemia da Covid-19.
“A inflação certamente é o maior desafio do setor para 2022, pois seu impacto é duplo, seja nos custos diretos como aluguel, CVM (Custo de Mercadorias Vendidas) e outros. Mas, também no passivo das empresas, pois os recentes financiamentos feitos pelo setor na pandemia, como o Pronampe, certamente serão corrigidos com a pressão também sobre os juros”, explica.
A pesquisa apontou que quatro em cada dez empresários possuem dívidas em aberto, sendo 15% com mais de 3 anos para quitação, 11% de 2 a 3 anos, e 23% de 1 a 2 anos. Outro dado que preocupa diz respeito ao faturamento das empresas. 60% afirmaram que faturaram em fevereiro de 2022 igual ou abaixo da receita de fevereiro de 2019, um ano antes da pandemia.

Dívidas em alta

A pesquisa da ANR encontra paralelo com outro levantamento recente realizado pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que apurou que apenas quase três em cada dez operações (26%) conseguiram ter algum lucro no mês de fevereiro (mês apurado pela entidade).
Outros 34% afirmam terem operado em equilíbrio –
sem ganhos – e o restante ficou no prejuízo. O que mostra que a retomada está
sendo desigual, segundo Paulo Solmucci, presidente nacional da Abrasel.
“As parcelas dos financiamentos em atraso e a inflação dos insumos, que praticamente não foi repassada para os cardápios, influenciam no resultado dos estabelecimentos”, conta.
A situação é mais complicada para 45% das
empresas que estão no Simples (que representam 85% do total de respondentes), com
parcelas atrasadas. Destas, 69% pretendem aderir ao Relp, programa de
refinanciamento do governo federal.

Vendas multicanal

Embora a inflação esteja fazendo os brasileiros
segurarem mais os gastos, os empresários dizem que estão sentindo uma melhora
gradativa no movimento. Para 51% dos entrevistados pela Galunion, os consumidores
estão retomado os hábitos de consumo de antes da pandemia.
Mas, sem deixar de lado o delivery, que foi tão
importante durante a pandemia e que não perdeu força mesmo com a retomada do
atendimento presencial. Simone Galante, CEO da consultoria, os consumidores se
acostumaram com a entrega em domicílio, e a adotaram no seu dia a dia.
“Os dados revelam que 89% dos ouvidos operam com delivery, e que 71% consideram este canal lucrativo”, conta.
Já para a Abrasel, a saída do Uber Eats do
Brasil aumentou a concentração em outras plataformas, principalmente o iFood,
que passou a ser utilizado por 94% dos restaurantes brasileiros.
“Continua como uma importante fonte de receita para os estabelecimentos. Mas, o que nos preocupa é a concentração dos pedidos em um único aplicativo, dependência aprofundada com a saída do Uber Eats do Brasil”, reforça Paulo Solmucci.
Segundo a pesquisa da entidade, o concorrente mais próximo, o Rappi, tem apenas 11% de participação das operações do setor.