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Gato Preto Restaurante Dançante: os fatos e mitos do logradouro que atravessa as décadas desafiando o imaginário

Entre fatos e lendas, o Gato Preto atravessa décadas como um dos restaurantes mais emblemáticos da boemia de Curitiba. Crédito: Reprodução/Átila Alberti (Tribuna do Paraná).
Na década de 60, uma garagem passou por uma reforma na rua Ermelino de Leão, no centro de Curitiba. Durante a obra, um gato preto surgiu e se instalou no imóvel, entre ferramentas, poeira e construção. A garagem escura seria transformada num restaurante e a presença do bichano daria nome a uma das Casas mais conhecidas na cena boêmia e gastronômica de Curitiba. Nascia o Restaurante Dançante Gato Preto ou, simplesmente, Gato Preto.
Transcorridas aproximadamente seis décadas, muita coisa aconteceu. O estabelecimento foi se transformando, mas nunca deixou de ser um dos destinos mais queridos por curitibanos e turistas. Em 1995, a família Santos assumiu a gestão e a cozinha. O próprio Natalino Jesus Santos, que comprou o restaurante, não sabe precisar o ano exato da abertura do Gato. Na placa lê-se 1960, “mas está errada”, afirma Natal, categoricamente. E é assim que as histórias em torno do estabelecimento – muitas delas épicas – vão chegando ao conhecimento geral: sempre vestidas numa pelagem densa e envoltas de superstição.
Como um gato preto que cruzasse a rua. Talvez seja justamente isto que torna este restaurante tão célebre, inclusive no imaginário de quem ainda não esteve. É como se o Gato Preto orbitasse entre dois universos tão distintos quanto indissolúveis: o seu endereço físico - com aquela fachada acanhada, quase invisível na ladeira da Ermelino – e o imaginário das pessoas, apoteótico como um carro alegórico, um delírio coletivo.

Teve canja do Iglesias ou não teve?
Mais uma história clássica é sobre uma visita do Julio Iglesias ao local. Algumas pessoas juram que ele deu uma “canja” e cantou na pista de dança do restaurante. Outros dizem que ele jamais sequer entrou ali. O testemunho do Natalino, que estava presente na ocasião, é que o cantor não só entrou, como se juntou a um grupo de estudantes que bebia em volta de uma mesa. Iglesias chegou a caminhar até a pista, interpelou o tecladista e pediu um tom. O músico não deu, Julio Iglesias não cantou nenhum verso e a canja ficou na imaginação de quem ventilou esta história, como tantas outras que flutuam sobre aquele trecho de ladeira.
Da família Santos para a sua família
Fato é: o Gato Preto é hoje uma casa de família, da família Santos. Ali, além do próprio Natal, trabalham a esposa dele, Maria Elizete, e o filho deles, Natal Junior. A casa abre 365 dias por ano, não deixa de funcionar nem nas noites de natal ou de réveillon.

Também trabalham o Carlinhos, que foi criado com a Maria Elizete, e os sobrinhos da família, Robson, Evandro “Cabeça” e João. Eles estão na cozinha e pelo salão. O Seu Luiz, músico, toca teclado ali há trinta anos. O copeiro, Claudeir, chegou antes até do que a própria família Santos. Trabalha no estabelecimento desde 1994. Ao todo, são praticamente cinquenta funcionários, todos devidamente registrados em carteira, inclusive os músicos e o Cipó, segurança que conhece boa parte dos frequentadores mais assíduos. É o jeito da família Santos conduzir o empreendimento.
Cada um na sua devida função, o Natal administra, o Junior toma conta do marketing e da crescente programação cultural e a Maria Elizete, segundo Natal, “faz de tudo um pouco. Ela é o meu braço direito, esquerdo, a cabeça, tudo”, esclarece ele sobre o papel da esposa.
Matando a fome no Gato Preto
É ela, também, que lidera o time da cozinha. Em se tratando do que tem para comer, as opções são muitas. Há a tradicional canja que sempre fez a alegria dos trabalhadores da noite. Mas o cardápio à la carte cresceu bastante. A costela é outro clássico disputado pelos boêmios famintos. A Casa chega a vender mais de mil quilos em uma semana, entre salão, delivery e retirada. Servida com arroz branco, salada de tomate e cebola, maionese e farofa, ela é cozida, primeiro, e depois assada. Tem pizzas, lasanhas, estrogonofe, dobradinha e diversas opções de petiscos. Para beber, segundo o Natal, tem de tudo.

Eventos, música e festas
Do ponto de vista estrutural, algumas novidades surgiram ao longo do ano passado. De olho no potencial para eventos, dois salões foram abertos. O Salão Branco comporta até oitenta pessoas. O Imperial chega a acomodar cinquenta. O custo para locação? Zero. Há uma consumação estabelecida de mil reais e, cada vez mais, boêmios e fãs do Gato Preto têm realizado aniversários e até eventos corporativos no restaurante. É assim que a família Santos acolhe seus clientes.
Segunda geração
Dizem que o fruto não cai longe do pé e o Natal Junior é tão inquieto quanto o pai dele, o Natalino Jesus. Além de se encarregar das ações de marketing, o Junior movimenta as redes sociais. Apaixonado por eventos culturais, tem reunido uma programação com apresentações de músicos daqui e até stand-up comedy. Ele quer que o Gato Preto possa abrigar projetos de músicos e artistas locais.

Toda essa mistura fina, do apego às origens, às iniciativas para evoluir com o tempo, faz do restaurante da família Santos um destino para todos. Que o diga a Dona Terezinha, viúva de 89 anos que frequenta o Gato há quarenta. Ela sai dos bailões onde costuma ir e encerra a noite ali. Toma whisky e adentra a pista, ao som de música sertaneja e gauchesca. Ela é uma verdadeira flor da noite. Alguém comentou que a Dona Terezinha, inclusive, foi uma das inspirações para essa canção muito conhecida, tão adorada quanto o próprio estabelecimento abordado nesta matéria. Os versos vão assim: “Doente de amor, procurei remédio na vida noturna / uma flor da noite em uma boate aqui na Zona Sul (...)”.
Se é fato ou mito, verdade ou superstição, nem as paredes do Gato Preto saberão.

