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Experiência imersiva: Madre Terra revoluciona e disponibiliza degustação a bordo de barco inspirado da Malásia.

Bom Gourmet

Tainá Zaneti: enóloga revoluciona vinícola na Serra Gaúcha e oferece degustação exótica a bordo de barco inspirado da Malásia

Anderson Hartmann, de Porto Alegre, especial para Bom Gourmet
04/04/2025 14:06
Autenticidade, sustentabilidade, magia e conexão. A Vinícola Madre Terra é tudo isso e muito mais. Comandada por Tainá Zaneti e sua família, se destaca no mundo do vinho não apenas pela singularidade de seus rótulos, mas pela filosofia única que guia cada passo do empreendimento. Situada no coração da Serra Gaúcha, em Flores da Cunha, a vinícola combina tradição vitivinícola com uma proposta inovadora e autêntica: uma profunda conexão com a natureza e uma experiência imersiva que vai além da simples degustação de vinhos.
A proposta da vinícola é marcada também por uma forte inspiração na energia feminina da natureza e na agricultura regenerativa. Essa abordagem sustentável não só permite a preservação dos ecossistemas locais, mas também reflete no sabor e na qualidade dos vinhos produzidos.
Mais do que apenas vinhos e espumantes autênticos, a Madre Terra oferece aos visitantes experiências memoráveis, como o exclusivo "Brinde no Barco", uma degustação exótica que remonta às experiências de Tainá na Malásia – onde ela morou antes de iniciar este projeto. Localizado em um dos cinco lagos da vinícola, o barco navega em meio às paisagens bucólicas enquanto os visitantes desfrutam os vinhos e uma seleção gastronômica local. A proposta é uma viagem aos sentidos, misturando a natureza exuberante da Serra Gaúcha com os sabores da vinícola.
Em entrevista exclusiva, Tainá Zaneti compartilha sua visão, os desafios enfrentados e o que a motivou a criar uma vinícola que une enogastronomia, sustentabilidade e a energia feminina da natureza. O pingue-pongue de perguntas e respostas que segue revela as inspirações e a dedicação por trás desse projeto revolucionário, que desafia as convenções do setor vitivinícola e oferece uma nova maneira de experimentar o vinho e a natureza.
1. Como surgiu a ideia da vinícola Madre Terra e qual foi sua inspiração principal?
A Madre Terra surgiu de um sonho de uma vida inteira e foi materializado nos últimos anos pelas forças do universo, que nos trouxeram até aqui. Quando a gente criou a Madre Terra, nosso maior foco era a natureza; nossa grande inspiração é a natureza. Por isso, não tinha como não ser este nome – Madre Terra. Esta grande mãe natureza que nos abraça, acolhe, que é casa, que é espaço de transformação, que define todos os ritmos, ciclos e metamorfoses. A Madre Terra surge dessa grande inspiração da energia feminina da natureza, que é a energia do criar, do amor, da prosperidade, fraternidade, carinho, das sementes que brotam, do gestar. Esta força, esta coisa maravilhosa que é gestar, alimentar, tudo relacionado ao poder feminino de prosperar.
2. Você foi a primeira doutora gastrônoma brasileira e agora a primeira enóloga formada na UCS. O que isso representa para você?
É sempre uma honra. Eu costumo enveredar por caminhos que ainda não existem. Costumo identificar um caminho e achar que não me encaixo e aí vou construindo. É muito difícil, mas muito poderoso. As coisas não estão feitas, prontas, é preciso ir tateando no escuro. Sou uma exploradora, gosto de ter autenticidade em tudo o que faço. Gosto de ser única, autêntica com sentimentos, com as coisas que eu acredito. E realmente isso não está pronto, não existe. É preciso seguir muito a intuição, mesmo sendo difícil. Porque o lugar que eu quero estar eu preciso construir. Para isso, é preciso força, dedicação, alegria para chegarmos em espaços incríveis e únicos.
3. Como concilia a maternidade com os desafios de liderar um projeto tão inovador?
Bonita pergunta. A Madre Terra é muito integrada à maternidade. Quando você tem filhos, são eles que te dão a força para você ser melhor, se dedicar em projetos, otimizar o tempo, ser mais criativo. Todos os dias, aprendo muito com as crianças, observando elas. Esse encantamento que elas têm do mundo, de ver pela primeira vez, é encantador, estimulante. Mais do que conciliar, elas me ensinam o que vale a pena no mundo. Nosso empreendimento é muito grande, são seis frentes todos os dias e elas me ensinam a manter a tranquilidade, ser criativa, colocar o amor no que eu faço, senão não faz sentido nenhum. Ensinam a cultivar a Madre Terra da melhor maneira possível. Isso é muito poderoso. Com elas, me sinto muito m mais produtiva, porque o tempo que tenho em casa com elas é deles, então preciso ser muito criativa quando eles não estão comigo.
4. O que torna a Madre Terra diferente de outras vinícolas do Brasil?
Todo nosso conceito. Desde o nome, nome feminino que busca a ancestralidade, a natureza, até a comunicação que tem um olhar muito próprio. Não é olhar de fotógrafo, nem de agência, é um olhar nosso, como a gente vê o mundo. Com muita autenticidade, com a forma de como colocar as coisas, até mesmo as embalagens, os produtos. Nossa história de vida tem a ver. Minha própria trajetória e da minha família molda as experiências, a comunicação, o que a gente oferece. Tento fazer coisas ‘incopiáveis’, relacionadas com a nossa autenticidade. Aliar autenticidade de vida com os ativos que a gente têm na Madre Terra – lagos, natureza, ingredientes do entorno – é nossa rotina.
5. Como funciona a experiência do restaurante? Como a horta interna influencia os pratos?
Funciona com os menus das temporadas gastronômicas. Estamos operando em sistema soft opening aos sábados. O menu funciona com reserva. Batizamos eles com nomes de caminhos. O de verão era Menu Veredas. É um passeio por um Brasil profundo que deságua na Madre Terra. Agora, seguimos para o Menu Travessias, ventos de outono. São quatro pratos. Iniciamos com nossos pães de fermentação natural e nossas manteigas, tudo feito em casa. Depois, três pratos que conversam com a gastronomia brasileira contemporânea, harmonizados com os vinhos e espumantes Madre Terra. Mas antes, a gente faz um passeio guiado perla propriedade com a intenção de que as pessoas se reconectem com elas mesmas, com a natureza, antes da experiência gastronômica.
6. A vinícola aposta na agricultura regenerativa. Como esse conceito é aplicado na prática?
Adotamos o caminho do meio. Seguimos práticas do budismo em busca do melhor equilíbrio possível. Não somos totalmente convencionais, nem totalmente orgânicos. Os tratamentos que usamos são 90% biológicos, o que é maravilhoso para o meio ambiente e para a nossa saúde é excelente. Assim, geramos um grande impacto na conservação da sociobiodiversidade, onde mantemos, também, um trabalho com abelhas e reservas de mata nativa, o que é muito para a conservação e a nutrição do solo. Quando a gente faz isso, estamos ajudando as videiras a estarem bem nutridas, alcançarem grande desenvolvimento, gerarem bons frutos e excelentes vinhos.
7. Qual a história por trás do piquenique no barco e das experiências gastronômicas imersivas?
O nosso Brinde no Barco é uma experiência inspirada no que vivemos na Ásia. Moramos lá e vivemos muitas experiências. Esta foi uma delas. Quando chegamos aqui e vimos os cinco lagos a gente sabia que seria muito legal se aproveitássemos a experiência de uma maneira lúdica, romântica e com o jeito Madre Terra. O lago escolhido é de nascente e tem mata ciliar em volta, moldurada com álamos. É um espaço belíssimo para observação de pássaros de muitas espécies. O céu é lindo, a natureza é farta, muito especial. Mandamos fazer dois barcos inspirados nos moldes da Malásia. Nele, degustamos espumantes em nossas taças exclusivas, acompanhadas por uma tábua com uma seleção de delícias. Nossas experiências gastronômicas são imersivas. Trabalho há 20 anos com gastronomia e Antropologia e Sociologia da alimentação. Ver a comida, literalmente, como uma experiência imersiva é a linguagem pela qual nos comunicamos com o mundo. O que você come, o que não come, como come, com quem come, onde come, tudo isso é uma forma de vivenciar o mundo. A gente busca na Madre terra fazer a enogastronomia como nossa forma de comunicação. Esperamos que as pessoas também consigam mergulhar nisso e se desconectar do resto do mundo e estar ali presente 100%.
8. Como você vê o futuro do vinho brasileiro e qual seu papel nessa transformação?
Vejo com duas possibilidades: Possibilidade 1 – Despontar. O Brasil tem vinhos de excelente qualidade, já temos tradição vitivinícola, vinhos em quase todos os biomas do Brasil – soube que tem vinhedo na Amazônia, então seria em todos – temos tecnologia de ponta e grandes investimentos. Acredito que temos tudo para despontar se o brasileiro nos abraçar.
Possibilidade 2 – Um mercado tomado por vinhos estrangeiros, muitas vezes de qualidade inferior, esvaziando o mercado, especialmente, dos pequenos produtores, deixando espaço apenas para grandes indústrias e para o mercado internacional. Tá na nossa taça a escolha. Espero que a gente siga pelo primeiro caminho: abraçar o setor vitivinícola, colocar o vinho brasileiro na taça e brindar aos nossos viticultores e ao vinho brasileiro.
9. O que significa para você representar a força da mulher nesse setor tradicionalmente masculino?
Em 2025 a gente ainda tem que discutir a força da mulher em qualquer setor. É muito triste. Significa que a gente ainda não tem o espaço que deveria ter. Ainda é uma surpresa quando somos competentes ou assumimos posição de liderança. Me deixa triste em saber que ainda é um ponto de discussão. A lista dos 50 melhores restaurantes do mundo traz o reconhecimento do melhor chef e chef mulher. Na última edição, ela se recusou a receber a distinção porque para ela não existe a diferença. Para ela, a premiação deveria ser única, independente do gênero. Diante disso, ser mulher num setor tão masculinizado é desafiador. A gente ainda precisa ser levada a sério, mostrar que somos competentes, lidar com situações muito complexas, muito desconfortáveis. Exemplo: de as pessoas falarem com homem e não com você. Primeiro é preciso se entender como mulher, como uma força da natureza que pode abrir caminhos e, a partir disso, a gente precisa abrir espaços para outras mulheres, sem competição, sem agressividade. E fazer com que isso não seja uma questão daqui a algum tempo. Que a gente consiga fazer o nosso trabalho sem empecilho ou preconceito, apenas por ser nós mulheres.
10. Qual mensagem você gostaria de deixar para outras mulheres que sonham em inovar na gastronomia e enologia?
Nós mulheres podemos ser e fazer o que quisermos. Se você tem um sonho, não deixe nada, nem ninguém te parar, descreditar, subestimar. A gente é muito mais do que a gente imagina, muito capazes, temos uma capacidade incrível de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Se o seu sonho é de ser enóloga, apenas siga seu coração, confie em você. Confie em sua intuição que você vai chegar onde quer chegar.