Bom Gourmet
Carmel’s 30 anos: da venda de pipoca em parques e arquibancadas de Curitiba a uma loja de luxo
Das arquibancadas do Couto Pereira e do antigo estádio Joaquim Américo à efervescência gastronômica e cultural do bairro de Pinheiros, em São Paulo, se passaram 30 anos, completos no fim de 2023. Nem parece tanto tempo assim para o casal Luciana e Ithamar Kirchner, sócios-fundadores da Carmel’s Pipocas e Sabores, que fez do ato quase prosaico de fazer e comer pipoca uma experiência gourmet.
Eram outros tempos. Em 1992, os vendedores podiam circular livremente pelos degraus das bancadas do estádio do então Atlético Paranaense (antes do TH e dos títulos nacionais e internacional). Luciana e Ithamar, na casa dos 18 anos, já casados, seguiam os passos dos pais dela, o casal Antônio das Neves Filho e Irene das Neves, que começaram como pipoqueiros em Curitiba em 1964 trabalhando em locais como o Passeio Público e no Parque Alvorada.
Corta para o início dos anos 1990, quando Luciana e Ithamar, já casados, acompanhavam dona Irene e seu Antônio no empreendimento. Ela se lembra de um evento em que foram trabalhar e as vendas foram baixas. Dona Irene ensinou então que era preciso que a pipoca estivesse sempre quente, para que o perfume dela se espalhasse pelo local e conquistasse clientes.
“Em 1993, minha mãe conseguiu uma licença para vender pipoca no Jardim Botânico”, recorda Luciana. O espaço, um dos símbolos da capital, havia sido inaugurado dois anos antes. O casal não tinha carro. Iam ao Botânico no Interbairros 2, com todo o material de preparação da pipoca no ônibus, mais Ithamar Júnior, o filho mais novo, à época bebê de colo. O casal não tinha com quem deixar o menino, e ele esperava pacientemente os pais trabalharem em um carrinho de bebê. O carrinho de pipoca ficava guardado em uma casa próxima ao jardim, a cerca de 500 metros. Ithamar, o pai, ia todos os dias até a casa, pegava o carrinho para o trabalho, ocupava seu espaço no portão de entrada, e retornava à residência para guarda-lo após o expediente.
Seguiram com essa rotina até quando conseguiram comprar um carro. “As coisas foram ficando mais fáceis, as vendas melhorando”, recorda Luciana. “Depois que a gente comprou a Kombi com a carretinha, os meninos já eram maiores, iam com o Ithamar, e começaram a gostar”, conta. Além do Jardim Botânico, a família trabalhava também no Parque Alvorada.

Referência internacional
Luciana sempre esteve de olho em receitas diferentes e possibilidades de criar em cima de algo tão corriqueiro quanto a pipoca. Em 2012, o casal foi aos Estados Unidos, onde Júnior, bom de bola, conseguiu uma bolsa de estudos para jogar futebol. Foi ele quem, em uma visita a Chicago com a esposa, deu de cara com uma fila imensa que saía de uma das lojas da rede Garrett Popcorn, que chegou a ter operações no Brasil. “Conhecemos essa loja e eu comecei a buscar mais referência, porque nos Estados Unidos o pessoal é bem exagerado”, constata. “Via aquelas latas grandes de pipoca, aquilo me enchia os olhos. Eu queria abrir uma loja assim, com pipoca em latas e potes grandes”, recorda.
Então Luciana começou a experimentar e buscar receitas novas para incrementar o velho hábito de estourar pipoca. A ideia era oferecer mais do que o que tantos outros carrinhos de pipoca ofereciam. Até porque não seria possível criar uma loja para vender pipoca se o produto oferecido fosse o mesmo encontrado corriqueiramente em cinemas e outros locais onde são oferecidas. Com o passar do tempo, o casal aprimorou receitas e estabeleceu a Carmel’s como sinônimo de uma marca que transformou um snack corriqueiro em uma experiência de textura e sabor.
O nome Carmel’s Pipocas & Sabores surgiu em 2017, quando a família providenciou um carrinho novo para trabalhar no Jardim Botânico.
A pandemia e um drive thru de pipoca gourmet
O sucesso de público da pipoca gourmet de Luciana e Ithamar fez o casal inovar na estratégia de divulgação. Logo, começaram a mandar exemplares para influencers da cidade, enquanto alimentavam o Instagram com fotos e informações sobre os produtos.
Quando o mundo parou por causa da pandemia, estabelecimentos comerciais, como bares e restaurantes, foram praticamente os primeiros a interromper as atividades. Com eventos cancelados sem perspectiva de retorno e o Jardim Botânico fechado para visitas, Luciana e Ithamar precisavam de uma alternativa. Antes, aproveitaram a pausa global para mergulhar ainda mais nos experimentos. Utilizavam o milho comum, chamado Butterfly, mas ele não permitia o acabamento final. Foi quando encontraram o milho chamado mushroom. “A gente ficou muito feliz, porque com ele a pipoca ficava bem cobertinha, redondinha”, explica.
Então criaram, na porta de casa, na Vila Hauer, um drive thru – até onde se sabe, o primeiro no país. Foi o momento em que Luciana também decidiu que era hora de experimentar. A experiência deu mais do que certo: foi com a venda na porta de casa no período pandêmico que Leonardo Macedo, Tiago Barcellos e Tiago Abravanel (ele mesmo, o neto de Silvio Santos) passaram para conferir os sabores no cardápio da marca e então decidiram investir no negócio.
Com os novos parceiros, o ponto de virada: a decisão de abrir a primeira loja em São Paulo, em 2021. “Eles achavam que o mercado em São Paulo era bem mais aquecido que Curitiba”, destaca Ithamar. A proposta ousada surgiu quando perceberam que estava mais difícil encontrar imóveis adequados em Curitiba do que imaginavam. O endereço escolhido foi na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros, um dos bairros mais agitados da cidade, conhecido pelos restaurantes e pela efervescente vida noturna e cultural.
Foi o ponto de virada da Carmels. “Foi o que fez a gente querer fazer mais”, destaca Luciana. “Quando uma pessoa sai da loja com uma sacolinha, é uma felicidade muito grande”, acrescenta Luciano. Hoje, além da loja em Pinheiros e a de Curitiba, na Alameda Prudente de Moraes, 1077, no Centro, em São Paulo a Carmel’s está também no Empório Fasano e no Figueira Rubayat.

Pipoqueiros com orgulho
Hoje, são 13 sabores, embalagens específicas – em latas pequenas, de 150 gramas, ou nas grandes, de 600 gramas. Em copos de plástico cuidadosamente preparados, com toda a identidade visual da marca. E com a possibilidade de ser comprado tanto pelo site quanto pelos aplicativos de entrega – iFood e Rappi. Entre os mais pedidos estão Dois Amores, Leite Ninho (essas duas, do tempo em que o casal tinha apenas o carrinho no Jardim Botânico), Flor de Sal, Chocolate Meio Amargo e a Zebrinha – caramelo com manteiga e ‘zebradinha’ de chocolate ao leite e chocolate branco.
O sucesso não fez o casal esquecer suas origens. O carrinho verde de pipoca da família continua ativo na entrada do Jardim Botânico. “A gente se orgulha muito da nossa história”, esclarece Luciana, ao contar que toda a família se envolveu no trabalho – as noras perceberam a seriedade e a dedicação com que o casal construiu a Carmel’s ao pegar o legado iniciado por dona Irene e seu Antônio há mais de três décadas. “Elas viram que somos pipoqueiros diferentes, que evoluímos, fomos atrás dos nossos sonhos e assim construímos nossa história e nosso patrimônio”, acrescenta.
Ithamar: “A frase que usamos na nossa camiseta é ‘pipoqueiros com orgulho’”. Isso explica muita coisa.

Para fazer em casa
Quase todo mundo que um dia colocou uma panela sobre uma chama acesa de um fogão pelo menos uma vez na vida sabe como fazer pipoca. Milho, óleo, observar o tempo correto e o estouro do milho para não deixar queimar, não há muito segredo. A questão é: se você deseja fazer uma pipoca gourmet em casa, é preciso estar atento a detalhes.
A atenção começa nos primeiros estouros do milho, explica Ithamar. A altura do fogo e a panela são fundamentais para uma pipoca saborosa. Se o fogo for muito alto, os demais ingredientes que farão essa pipoca algo diferente do tradicional podem queimar antes mesmo do milho estourar. A panela precisa ser específica para pipoca, sobretudo para as receitas doces.
É preciso observar também o que vem depois do fogo desligado. Para manter a crocância das pipocas, é preciso o armazenamento correto e uma embalagem bem vedada. “É importante esperar ela esfriar completamente para colocar em qualquer recipiente, senão pode abafar”, explicou Luciana ao Bom Gourmet em 2022. “O interessante é não salgar muito também, já que o sal pode umedecer”.
Se você quer surpreender a família e amigos com uma pipoca única, confira duas receitas da Carmel’s para fazer em casa. O risco de você nunca mais querer a pipoca tradicional é grande.

Pipoca de Lemon Pepper
Carmel's Pipoca & Sabores
Ingredientes:
- 100 g de milho de pipoca
- 70 ml de óleo
- 1 colher de sopa rasa de tempero lemon pepper
Modo de Preparo:
- Em uma panela pipoqueira acrescente o óleo e espere aquecer até sair um pouco de fumaça.
- Em seguida, coloque o milho de pipoca e o lemon pepper e misture com uma espátula de silicone ou colher de pau.
- Tampe a panela, mexa-a com a tampa fechada e aguarde os grãos terminarem de estourar.
- Então, é só servir.

Pipoca de chocolate ao leite
Carmel's Pipoca & Sabores
Ingredientes:
- 120 g de milho de pipoca
- 100 g de açúcar cristal
- 1 colher de sopa de água
- 1 fio de óleo
- 150 g de cobertura de chocolate
Modo de Preparo:
- Em uma panela pipoqueira coloque o açúcar, a água, o óleo e deixe derreter até que se forme um caramelo de coloração clara.
- Despeje o milho e mexa sem parar.
- Assim que os grãos terminarem de estourar, jogue a pipoca em uma travessa de alumínio, espalhe bem e deixe secar. Quando estiverem secas, separe uma a uma e coloque em um recipiente fundo.
- Em outro recipiente, derreta a cobertura de chocolate em banho maria até atingir 45 graus.
- Adicione o chocolate nas pipocas e misture com uma espátula.
- Em seguida, em um papel manteiga, espalhe as pipocas e deixe-as secar. Depois, estarão prontas para consumo.
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