Bom Gourmet

A Refeição Que Nunca Terminei

A Xepa, com André Bezerra e convidados
A Xepa, com André Bezerra e convidados
12/02/2026 09:00
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Crédito: Bigstock

Quando entro nesta cozinha, parece que o tempo se reorganiza. Ou, então, derrete como açúcar no fundo da panela. Aquele mesmo açúcar que a Dona Agripina transformava e que caramelizava sobre o pudim. A receita do pudim perfeito dela não permitia furos.
Eu sempre busco a mesma receita em todos os pudins que provo. Nunca consegui parar e aprender, os dias têm sido intensos. Eu sabia que um dia a Dona Agripina não estaria mais por aqui. A receita, porém, seguiria viva na minha memória. Com ela, eu queria ter aprendido a fazer os charutos, a torta fria, o fricassê e a sopa de músculo. O pudim é uma sobremesa maravilhosa, mas haviam também o arroz doce e o sagú acompanhado daquele creme que desafiava a lei da gravidade: não desmanchava, a não ser ao toque da boca.
A gente costumava passar muito mais tempo na cozinha. Eu, a minha irmã e os meus primos praticamente crescemos nesse ambiente. Por isso somos capazes de anteciparmos os pratos antes de chegarem à mesa, pelo aroma. Escolhemos as melhores frutas pelo toque, além da aparência. Intuímos o ponto de uma carne pela cor, mesmo quando está ainda na penumbra de um forno, deixando de ser apenas proteína e se convertendo em refeição. Poderia registrar, então, que somos cozinheiros de nascença, muito intuitivos e escolados pela observação. Era assim.
Sei mais ou menos, sem qualquer precisão, a época quando alguma coisa mudou. A gente foi deixando de prestar tanta atenção à coreografia da Dona Agripina entre as panelas, o forno e o fogão. Fomos abrindo mão de recorrer aos caderninhos manuscritos cada vez que buscávamos uma receita. Um universo de novas possibilidades se abria para nós, algo muito sedutor. Uma receita originária de um país que mal sabíamos pronunciar o nome passou para o alcance dos dedos. Basta acessar, dar uma busca e rolar a tela. Para receitas, dicas e técnicas, conteúdo disponível não falta. A sensação de poder sair da pequena cozinha de casa e das casas dos parentes e amigos, de conhecer tudo, nos pareceu inebriante. O tempo, sempre ele, se reorganiza de tantas maneiras. Se ele acelera ou se arrasta, sinto que tenho muito pouco controle sobre isso. O que faz falta é o que ele leva embora e que não volta mais.
Recentemente voltei àquela cozinha que me formou de verdade. E lá estava ela, atarantada entre picar as ervas e porcionar a couve e a carne vermelha, escolher o feijão, como aprendeu com os antepassados e seguiu fazendo. Devo ter passado umas duas horas ali sentado. Quando Dona Agripina me estendeu o prato, foi uma surpresa ver que ela tinha acabado de preparar a minha refeição favorita: arroz, feijão, bife alto e mal passado - bem acebolado - ovo mole, couve refogada, farofa e uma salada de maionese. Eu não vi quanto tempo levou o preparo, não cheguei a interagir com aquela senhora que estava lá quando nasci e que me viu crescer. Mal conversei com ela. Passei as horas baixando receitas no meu telefone, checando fichas técnicas, organizando tarefas e respondendo mensagens. Juro que deixei de sentir o aroma da cebola fritando, não vi quando minha cozinheira favorita fez um pequeno furo sobre a gema do ovo, deixei passar batido o momento quando ela puxou aquela couve à perfeição, perdi a oportunidade de ver a cor do alho dourando quando ela entrou com a farinha e finalizou a farofa irretocável.
Eu não ouvi direito a última história que Dona Agripina me contou, engoli o café que ela passou na hora e me despedi rapidamente. O horário que meu celular mostrava era irreversível e implacável, assim como todos os compromissos daquela tarde adiante de mim. Por isso recusei um pratinho com o melhor pudim que eu conhecia na vida, carinhosamente preparado na véspera. Eu não podia me atrasar. Desatento do que estava ao meu redor e conectado somente ao meu mundo novo, dei as costas e fui embora sem beijar as mãos da Dona Agripina, não lembro se cheguei a agradecer. Justamente ela que, mesmo sem saber, tanto me preparou para ser o que eu sou.